Fronteiras estão abertas e forças de segurança do Brasil acompanham movimentação. Foto: Agência Brasil
A análise da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC) sobre a situação na Venezuela é prudente e reflete bem a realidade econômica e social do Estado neste início de 2026. A ruptura política e econômica no país vizinho segue sendo observada com cautela, mas os dados mostram que, até agora, o impacto direto sobre a indústria catarinense é limitado: o comércio bilateral representa uma fatia mínima da pauta exportadora e importadora de SC, apenas 0,24% das exportações e 0,12% das importações em 2025, com destaque apenas para máquinas agrícolas exportadas e fertilizantes e alumínio importados.
Esse cenário nos lembra um ponto chave: a economia catarinense está fortemente integrada a mercados globais bem mais relevantes que o venezuelano, como Europa, Ásia e outras regiões das Américas. Por mais que notícias sobre tarifas ou dificuldades diplomáticas entre Brasil e Venezuela movimentem manchetes internacionais, na prática a correlação econômica com SC é pequena. A prudência da FIESC em não fazer prognósticos apressados é sensata, o risco para nossa indústria hoje é mais geopolítico do que econômico.
Por outro lado, o impacto social e demográfico é real e já presente. Os fluxos migratórios que trouxeram mais de 27 mil venezuelanos até Santa Catarina até início de 2024, conforme relatório da Operação Acolhida, não são números abstratos, eles se refletem em comunidades, no mercado de trabalho e nas cidades onde essas pessoas se estabeleceram.
Quanto ao trabalho de venezuelanos em SC
Diferentemente do comércio, a imigração é apontada pela FIESC como um vetor que já influencia a dinâmica da mão de obra local, com indústrias contando com trabalhadores venezuelanos para preencher vagas e manter sua capacidade produtiva. Isso demonstra que, mais do que um “problema”, essa movimentação populacional é uma resposta adaptativa à realidade do mercado de trabalho em SC, marcado por escassez de mão de obra em setores específicos.
Assim, a partir dos dados da FIESC, a situação exige duas atitudes claras:
– Manter a indústria conectada com mercados amplos e diversificados, sem depender exageradamente de relações que têm pouco peso econômico real para SC, e isso reduz o risco de perturbações significativas por conta de crises pontuais em países como a Venezuela.
– Apostar numa política pública integrada de acolhimento e inclusão de imigrantes, que reconheça a contribuição desses trabalhadores para a economia estadual, mas também cuide de sua integração social, profissional e de direitos. A experiência mostra que uma gestão eficaz dessa transição pode transformar desafios demográficos em oportunidades de crescimento e revitalização de comunidades.
No fim das contas, a indústria catarinense tem motivos para acompanhar com atenção, mas não com temor, as repercussões do que acontece na Venezuela. E mais do que olhar para fora, é preciso olhar para dentro: fortalecer políticas que tornem a economia de SC resiliente, inclusiva e conectada com suas próprias prioridades estruturais.




