27 de janeiro de 2026
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Flávio Jr

Chimarrão ilhéu: Uma tradição anterior à chegada dos gaúchos

Recriação do consumo de chimarrão na Vila de Nossa Senhora do Desterro, prática comum entre diferentes classes sociais no início do século XIX. Imagem: Inteligência artificial.

Bem antes do sotaque gaúcho ecoar pelas praias de Florianópolis, e muito antes do chimarrão virar uma marca da identidade do Rio Grande do Sul, a cuia já fumegava de mão em mão na Ilha de Santa Catarina. Entre ilhéus era como gesto cotidiano, íntimo e ancestral. Quando os primeiros colonizadores chegaram ao sul do continente, a erva-mate já fazia parte da vida dos povos originários. Guaranis, tupis, quíchuas e aimarás conheciam bem o poder da infusão: energia para o corpo, alegria para o espírito, resistência para longas jornadas. A bebida era preparada em pequenos porongos e sorvida por canudos de taquara, ou seja, é uma herança indígena.

Os europeus, sempre desconfiados do que não compreendiam, chegaram a chamar a planta de “erva do diabo”. No século XVI, padres jesuítas proibiram o consumo, acreditando tratar-se de algo alucinógeno. Mas, o álcool ganhou espaço e rapidamente os religiosos voltaram atrás e incentivaram o uso da erva-mate como alternativa mais saudável. Assim, pouco a pouco, o hábito de matear atravessou fronteiras culturais e passou a integrar o cotidiano dos colonizadores espanhóis e portugueses.

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Na Ilha de Santa Catarina o chimarrão chegou cedo com os navegadores espanhóis que passaram por aqui antes mesmo da fundação de Desterro, em 1675. Eles já haviam conhecido a erva-mate com os indígenas guaranis e caingangues. O costume se enraizou de tal forma que, no início do século XIX, era um costume em casas pobres e ricas, substituindo o café ou o chá europeu. Um médico alemão, Georg Heinrich von Langsdorff, que esteve na Vila de Nossa Senhora do Desterro entre 1802 e 1803, registrou com precisão esse hábito antigo. Ele descreveu as bombas simples de madeira usadas pelo povo e as peças delicadamente trabalhadas em prata nas casas abastadas. Falou das cuias feitas de coco, abóbora ou barro. Acima de tudo, destacou como o chimarrão já fazia parte da vida social da Ilha há muito tempo.

Vila de Desterro retratada pelo navegador Adam Von Krusenstern, em 1803. Imagem: Menezes, 2011.

Hoje, quando alguém caminha pela orla com uma cuia na mão, quase sempre é identificado como gaúcho, argentino ou uruguaio. Poucos imaginam que aquele vapor que sobe da erva também conta uma história da Ilha e muito anterior às migrações mais recentes. Uma história que começa com os povos originários, passa pelos navegadores, se acomoda nas casas de Desterro. Talvez o chimarrão nunca tenha deixado totalmente a Ilha e talvez apenas tenha ficado em silêncio. Muito antes dos rótulos regionais o chimarrão já era parte da paisagem, do gesto e da memória de Florianópolis.

           

             

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