28 de janeiro de 2026
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Paulo Chagas

Cão Orelha: quando a crueldade não para no crime

Quando a violência contra um animal evolui para a tentativa de calar a Justiça e expõe os limites entre privilégio, impunidade e responsabilidade legal. Assunto foi apresentado em coletiva à imprensa pela Polícia / Foto: Leo Munhoz / SECOM

O caso do cão Orelha já era, por si só, revoltante. Um animal comunitário, conhecido na Praia Brava, brutalmente agredido a ponto de não resistir aos ferimentos. Mas a investigação da Polícia Civil escancara algo ainda mais preocupante: a tentativa de adultos de interferir no curso da Justiça. O indiciamento de um advogado e dois empresários por coação de testemunhas muda o eixo do debate. Não se trata mais apenas de maus-tratos a um animal, mas de um esforço consciente para intimidar, silenciar e distorcer a apuração dos fatos. Quando familiares, com capital social e influência, tentam pressionar testemunhas, o recado é perigoso: o de que a lei pode ser contornada.

Coerência da Polícia

Os números apresentados pela Polícia Civil falam por si. Mais de 20 pessoas ouvidas, mais de mil horas de imagens analisadas, atuação conjunta de delegacias especializadas e cumprimento de mandados judiciais. Não houve omissão, nem pressa seletiva. Houve método, técnica e persistência, algo que precisa ser reconhecido. Também é relevante o cuidado institucional em relação aos adolescentes investigados. A lei é clara: não se expõe, não se lincha publicamente. A responsabilização ocorre dentro do Estatuto da Criança e do Adolescente, no tempo e na forma previstos. Justiça não se faz no grito, mas no devido processo legal.

Lição que fica

O caso Orelha deixa uma lição dura. A violência contra animais ainda encontra defensores silenciosos quando envolve filhos, sobrenomes ou posições sociais. E a tentativa de coagir testemunhas mostra que, para alguns, o problema não foi o crime em si, mas o fato de ele ter vindo à tona. Nesse cenário, o trabalho da Polícia Civil, especialmente das delegacias de proteção animal, sinaliza um avanço importante. A causa animal deixou de ser periférica. E quando a crueldade encontra resistência institucional, o que está em jogo não é apenas a memória de um cachorro, mas o limite entre civilização e barbárie.