Contradições, tentativa de esconder roupas e outras provas levaram a Polícia Civil de Santa Catarina a apontar um responsável
A Polícia Civil (PCSC) indiciou nesta terça-feira (3) um adolescente apontado como principal responsável pelas agressões brutais que levaram à morte do cão comunitário Orelha, em Florianópolis. Os indícios reunidos pela investigação para comprovar a suspeita envolvem contradições no depoimento e a tentativa de um familiar de esconder roupas utilizadas pelo jovem na data do crime.
O indiciado é um dos dois adolescentes que estavam no parque de diversões da Disney, nos Estados Unidos, quando as investigações começaram. Segundo o delegado-geral da PCSC, Ulisses Gabriel, tratava-se de uma viagem de escola pré-programada. Com a repercussão do caso, o suspeito decidiu adiantar o retorno ao Brasil para o dia 29 de janeiro, informação que foi obtida em monitoramento com a Polícia Federal (PF). Ao chegarem no Aeroporto Internacional de Florianópolis, os dois jovens tiveram os celulares apreendidos.
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Ao ser interceptado pela PCSC, um familiar do suspeito tentou esconder um boné rosa e um moletom, o que chamou a atenção dos policiais. “Durante a revista da mala desse adolescente, esse mesmo familiar apresentou um comportamento suspeito ao falar que esse moletom teria sido adquirido na viagem. Então nós resolvemos apreender esse material e comparar com as imagens que nós tínhamos obtido”, explica a delegada Mardjoli Valcareggi, uma das responsáveis pelo inquérito.
A polícia catarinense analisou mais de mil horas de imagens de 14 câmeras de monitoramento na Praia Brava, no Norte da Ilha, com o objetivo de acompanhar as últimas movimentações de Orelha e também dos investigados. Esses registros possibilitaram aos investigadores identificar que as peças de roupa que estavam sendo escondidas eram as mesmas utilizadas pelo suspeito na data em que o cão foi morto. O fato de que o moletom não havia sido comprado durante a viagem também foi confirmado pelo adolescente em depoimento.
A reconstrução dos fatos
Orelha foi morto por volta das 5h30 de 4 do dia janeiro, na Praia Brava. Um laudo da Polícia Científica concluiu que ele foi agredido com uma “pancada contundente na cabeça”, que pode ter sido por um chute ou algum objeto rígido, como um pedaço de madeira ou garrafa. A investigação precisou montar um verdadeiro quebra-cabeça, pois não houve testemunhas ou registros em imagens do momento exato em que as agressões ocorreram.
A PCSC identificou que o desenrolar dos fatos teve início às 5h25 da manhã, quando o adolescente deixa o condomínio. Apenas às 5h58, ele retorna com uma amiga. Segundo os delegados do caso, durante o depoimento, o suspeito afirmou que não havia saído de casa e que teria ficado na beira da piscina do condomínio com a outra jovem. “Esse foi o grande ponto de contradição nas declarações do adolescente. Ele não sabia que tínhamos as imagens dele saindo e voltando”, afirma o delegado Renan Balbino.
Ainda segundo a PCSC, o jovem mentiu e se contradisse diversas vezes durante o depoimento. Além das imagens e das roupas, a investigação reuniu outras provas do momento em que ele esteve fora do condomínio e próximo da praia, como o controle de acesso da portaria e o depoimento de testemunhas. Um programa digital francês também ajudou os investigadores a analisar a localização do celular do responsável durante o ataque fatal a Orelha, que teria ocorrido por volta das 5h30.
“O desafio era evitar o máximo de vazamentos sobre o que já tínhamos. Como se tratava de um adolescente fora do país, ele poderia empreender fuga ou se desfazer de importantes elementos de prova, como a roupa utilizada na data do fato e o seu aparelho celular. Por conta do Estatuto da Criança e do Adolescente, só conseguimos completar esse quebra-cabeça com a tomada de declarações do adolescente investigado”, pontua a delegada Mardjoli.
10 pontos que levaram a polícia ao autor
- Testemunhas do dia e local.
- Confirmação, por meio de imagens, de que as testemunhas estavam no local e no horário.
- Análise de geolocalização do telefone do autor, por meio de software francês.
- Confirmação, por meio de câmeras, de que o autor estava no local e no horário.
- Contradição e mentira no depoimento do adolescente sobre sua localização.
- Confirmação, por meio da portaria eletrônica do prédio, do horário de entrada e saída do adolescente.
- Boné rosa utilizado no dia do crime em posse do autor.
- Moletom utilizado no dia do crime em posse do autor.
- Coação por parte de familiares do autor contra testemunhas.
- Uso de software israelense para recuperação de dados apagados nos celulares dos investigados.

Conclusão das investigações
O inquérito sobre a morte do cão Orelha englobou também os maus-tratos a outro cão comunitário da Praia Brava, o Caramelo, na mesma semana. Imagens registraram o momento que um grupo de adolescentes pega o animal e tenta jogá-lo no mar, mas sem sucesso. Ao todo, 8 adolescentes foram tratados como suspeitos no bojo das investigações e 24 testemunhas foram ouvidas.
No caso Orelha, a Polícia Civil pediu a internação preventiva do adolescente apontado como responsável pela morte do animal em uma unidade socioeducativa. A medida se equipara ao pedido de prisão preventiva quando um maior de idade é indiciado por um crime. Nesse caso, o menor irá responder por ato infracional análogo ao crime de maus-tratos a animal.
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Ainda no caso Orelha, três adultos – dois empresários e um advogado, familiares do suspeito – foram indiciados pelo crime de coação no curso do processo, por terem intimidado testemunhas. Outros quatro adolescentes foram apontados como responsáveis pelos maus-tratos ao cão Caramelo e também devem responder a medidas socioeducativas.
As investigações ocorreram em sigilo e a identidade de nenhum dos adolescentes suspeitos foi divulgada, em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Com a conclusão do inquérito, o caso foi repassado ao Ministério Público de Santa Catarina (MSPC), que pode pedir novas medidas para aprofundar a investigação, arquivar o caso ou simplesmente remeter a denúncia ao Poder Judiciário.
Confira mais detalhes na reportagem do SC Acontece
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