O mar escreveu as primeiras páginas da história de Florianópolis. Muito antes do asfalto ocupar o protagonismo, eram as águas que aproximavam pessoas, movimentavam a economia e definiam o ritmo da vida na Ilha. A cidade nasceu olhando para o horizonte, guiada pelas marés e pela força da vocação marítima. Durante séculos, o mar foi caminho, trabalho e sobrevivência. As baías eram as avenidas de uma ilha que ainda aprendia a escrever sua própria história.
Mas o tempo tem dessas ironias, vieram os aterros e o Mercado deixou de ser beijado pelo mar. À medida que as estradas avançaram e os automóveis passaram a conduzir o desenvolvimento urbano, Florianópolis fez um movimento quase imperceptível, mas profundamente simbólico: virou as costas para o mar. O oceano permaneceu ali, abraçando a cidade por todos os lados, enquanto a cidade escolhia olhar para a terra.
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Nem mesmo o hábito de entrar na água fazia parte da cultura local e tomar banho de mar era considerado uma prática “imoral” proibida pelo Código de Posturas municipal. Hoje parece impensável imaginar uma Florianópolis sem banhistas espalhados pelas praias, mas o banho de mar só começou a se popularizar a partir da década de 1920. Antes disso, o oceano era visto com respeito, quase exclusivamente como ambiente de trabalho.
Talvez por isso ainda exista uma dívida histórica entre Florianópolis e o seu maior patrimônio natural. Poucas cidades no mundo possuem uma relação geográfica tão privilegiada com o mar. São baías abrigadas, enseadas, praias, ilhas e um cenário capaz de impulsionar turismo, esporte, cultura e desenvolvimento econômico. No entanto, durante décadas, exploramos apenas uma pequena parte desse potencial.
O início das obras da nova marina na Beira-Mar Norte pode representar mais do que concreto, píeres e embarcações. Pode simbolizar uma mudança de mentalidade. Uma oportunidade para que Florianópolis volte a enxergar o mar como parte da vida urbana, e não apenas como a paisagem que admiramos pela janela do carro. Quando bem planejada, uma marina não beneficia apenas quem possui um barco. Ela cria espaços públicos, incentiva o turismo náutico, movimenta a economia, fortalece o comércio, valoriza os esportes aquáticos e devolve às pessoas o prazer de ocupar a orla.
Mais do que uma obra, trata-se de um gesto de reconciliação. Reconciliação com a história de uma cidade que nasceu navegando. Reconciliação com uma identidade construída entre ventos, marés e redes de pesca. Reconciliação com um horizonte que sempre esteve ali, esperando apenas que voltássemos a contemplá-lo. Florianópolis não precisa descobrir o mar, precisa apenas redescobrir a si mesma.
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