Previsões apontam possibilidade de calor intenso, estiagens regionais e episódios de chuva acima da média até os primeiros meses de 2027
A combinação de um El Niño forte com o aquecimento do Atlântico tropical e alterações no Oceano Índico acende um alerta para a agricultura brasileira no último trimestre de 2026. Um relatório da consultoria StoneX aponta riscos para as lavouras de soja, milho e café, diante da possibilidade de temperaturas elevadas, chuvas irregulares e períodos prolongados de deficiência hídrica.
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De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o fenômeno El Niño está ativo, com probabilidade próxima de 100% de persistir até fevereiro de 2027. O cenário favorece alterações nos padrões climáticos e pode aumentar a ocorrência de eventos extremos, como estiagens regionais, secas e episódios de chuva intensa.
Segundo Carolina Giraldo, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, os efeitos do fenômeno não seguem um padrão único. A influência sobre a produção depende da interação entre os sistemas oceânicos e atmosféricos, além da distribuição das precipitações durante as diferentes etapas do ciclo agrícola.
Excesso de chuva no Sul e risco de estiagem no Cerrado
As projeções indicam condições distintas entre as principais regiões produtoras do país. No Sul, o volume elevado de chuva pode favorecer a umidade necessária para o início do plantio. Por outro lado, as precipitações intensas podem dificultar a entrada de máquinas nas lavouras e atrasar a semeadura.
No Cerrado e no Matopiba, região agrícola que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a preocupação é com a combinação de calor intenso e redução das chuvas prevista para novembro e dezembro. A falta de água no solo pode provocar estresse hídrico nas plantas e comprometer a produtividade da soja e do milho, especialmente nas fases de maior demanda por umidade.
O Sudeste também exige atenção, principalmente nas áreas de cultivo de café. Mesmo sem previsão de uma seca generalizada, as temperaturas elevadas no fim do ano podem aumentar o estresse térmico dos cafeeiros e afetar o desenvolvimento das plantações. Em contrapartida, a perspectiva climática para os canaviais do Centro-Sul é considerada favorável, desde que não haja excesso de umidade nas lavouras.
Oscilações recentes reforçam preocupação
O comportamento das chuvas nos últimos meses evidencia a instabilidade climática na América do Sul. Em julho e agosto, o Rio Grande do Sul registrou volumes de precipitação muito acima da média histórica. Em setembro, o padrão mudou em outras áreas do país. Nos primeiros 23 dias do mês, São Paulo acumulou chuvas 273% acima do padrão habitual, enquanto o Paraná registrou precipitações 181% superiores à média. No mesmo período, regiões produtoras do Uruguai enfrentaram uma estiagem severa.
A alternância entre excesso de chuva e falta de umidade pode trazer dificuldades tanto para o desenvolvimento das culturas quanto para as operações agrícolas, incluindo plantio, manejo e colheita.
Cenário internacional também exige monitoramento
Os riscos climáticos não se restringem ao Brasil. No Paraguai e no Uruguai, o excesso de chuva também ameaça dificultar as atividades no campo. No sul da África, produtores de milho enfrentam a perspectiva de calor e seca no fim de 2026.
Outras regiões produtoras também estão sob acompanhamento, incluindo áreas de cultivo de cacau na Costa do Marfim e em Gana, trigo na Argentina, Índia e Austrália, além de café na América Central e na Ásia. Para Carolina Giraldo, o acompanhamento das condições meteorológicas será decisivo ao longo do quarto trimestre. Mais do que considerar as médias de chuva e temperatura para o período, será necessário observar a evolução mensal das condições climáticas e da umidade do solo.
Os efeitos sobre a produção e o mercado agrícola dependerão da intensidade das variações climáticas e do estágio de desenvolvimento de cada cultura, fatores que podem determinar o impacto sobre a produtividade e a oferta das principais commodities.
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