Mobilização popular, o embate institucional e a política do confronto permanente, ingredientes do manifesto em Brasília / Foto: Instagram
O encerramento da caminhada liderada por Nikolas Ferreira em Brasília, neste domingo, 25, foi mais do que o fim de um trajeto de 240 quilômetros entre Paracatu e a Praça do Cruzeiro. Foi, sobretudo, a consolidação de um novo capítulo na mobilização da direita brasileira, que mistura ativismo de rua, redes sociais e confronto direto com as instituições. Os números já dizem muito, e, ao mesmo tempo, revelam a disputa de narrativas. A USP fala em 18 mil pessoas. A Secretaria de Segurança do DF estima entre 50 mil e 100 mil. Seja qual for a conta real, é inegável que houve massa crítica suficiente para transformar o ato em fato político. Some-se a isso a força digital: vídeos com mais de 50 milhões de visualizações e o engajamento de nomes como Carlos Bolsonaro, Marcos do Val, Zé Trovão, Julia Zanatta, Marcel van Hattem e Padre Kelmon, entre outros. Nikolas mostrou, mais uma vez, que sabe ocupar o espaço onde a política hoje também acontece: nas ruas e nas telas.
Cobranças pontuais
No discurso final, o deputado dobrou a aposta no embate com o STF e ampliou o alvo ao cobrar do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a instalação de duas CPMIs, uma sobre o INSS e outra sobre o caso Master. A fala mais explosiva, ao citar o contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e a esposa de um ministro do Supremo, deu o tom do que ele pretende: transformar suspeitas e indignação difusa em combustível político permanente. Ao chamar a manifestação de “um grito de quem não aguenta mais”, Nikolas se posiciona como porta-voz de uma parcela do eleitorado que se sente excluída do jogo institucional e desconfia profundamente das cortes superiores.
“Acorda Brasil”
O slogan “Acorda, Brasil” não é casual. Ele dialoga com a retórica de missão, quase messiânica, de “despertar” os outros. Funciona bem para mobilizar, mas também aprofunda a lógica de nós contra eles, virtuosos contra corruptos, povo contra sistema, rua contra toga. É uma estratégia eficiente para manter coesa a própria base, embora pouco produtiva para construir pontes num país já saturado de polarização.
Retórica da oposição
Os opositores, por sua vez, tentam reduzir a caminhada a uma “cortina de fumaça” para abafar uma suposta ligação de Nikolas com o caso Master. A crítica pode até encontrar eco em setores mais céticos, mas não parece ter sido suficiente para esvaziar o ato. Pelo contrário: o ataque reforça a narrativa de perseguição que o deputado e seus aliados sabem explorar como poucos.
Saldo final
O desfecho, marcado por tensão e tragédia, com um raio atingindo manifestantes, 72 atendimentos e 29 hospitalizações, adiciona um elemento dramático que tende a ser incorporado ao simbolismo do movimento. Para seus apoiadores, vira prova de sacrifício e resistência. Para os críticos, um alerta sobre os riscos de transformar protesto em espetáculo contínuo. No saldo final, Nikolas Ferreira sai maior do que entrou. Não porque tenha obtido concessões concretas do STF ou do Senado, mas porque conseguiu pautar o debate, mobilizar gente, gerar imagens fortes e reforçar sua posição como principal rosto da nova direita militante. Resta saber se esse capital político será convertido em algo além de barulho e likes, ou se ficará restrito ao ciclo vicioso da indignação permanente.




