Prisão do ditador escancara o colapso do regime venezuelano, expõe contradições diplomáticas do Brasil e abre uma disputa decisiva pelo futuro democrático do país. / Foto: reprodução/divulgação
A prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, com toda a carga simbólica e geopolítica que carrega, marca um ponto de inflexão incontornável na história recente da Venezuela. Independentemente das divergências jurídicas e diplomáticas sobre soberania nacional, o fato é que o regime chavista ruiu politicamente antes mesmo de qualquer ação externa. Maduro já governava sem legitimidade democrática, sustentado por repressão, fraude eleitoral e pelo colapso institucional de um país que expulsou milhões de seus próprios cidadãos para o exílio da miséria. Os protestos contra e a favor da prisão apenas escancaram a fratura venezuelana. De um lado, uma população exausta, que vê no episódio a possibilidade real de encerramento de um ciclo autoritário que destruiu a economia, corroeu as liberdades e transformou a Venezuela em sinônimo de crise humanitária. Do outro, setores ideológicos e governos alinhados ao chavismo, que insistem em tratar Maduro como presidente legítimo e usam o discurso da soberania para relativizar abusos, prisões políticas e a anulação sistemática da democracia.
Posição do Brasil
O posicionamento do governo brasileiro, ao levantar a bandeira da soberania do país vizinho, é previsível, mas insuficiente diante da gravidade dos fatos. Soberania não pode ser escudo para ditaduras. A defesa automática de regimes autoritários, sob o pretexto de não intervenção, coloca o Brasil em uma posição desconfortável no cenário internacional e distante do sentimento majoritário do povo venezuelano, que não pede tutela externa, mas sim o direito básico de escolher seus governantes em eleições livres e transparentes.
Transição futura
O futuro governo da Venezuela, qualquer que seja o formato de transição, terá um desafio gigantesco: reconstruir instituições, restabelecer a confiança internacional e, sobretudo, devolver dignidade à sua população. A queda de Maduro, política, moral e agora judicial, não resolve tudo, mas encerra uma farsa prolongada. O tempo do chavismo como projeto de poder acabou. A partir de agora, a comunidade internacional precisa deixar de lado conveniências ideológicas e ajudar a garantir que a Venezuela volte a ser uma nação democrática, estável e soberana de verdade, soberana em relação ao seu povo, não a um grupo que se apropriou do Estado.




