Reconhecer a condição em qualquer fase da vida pode trazer alívio, promover autoconhecimento e viabilizar estratégias assertivas para os desafios cotidianos
No mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o foco se expande para além da infância. É fundamental reconhecer os sinais de autismo em adultos, um grupo frequentemente invisível que, muitas vezes, passa décadas sem o diagnóstico correto. O Censo do IBGE de 2022 aponta que cerca de 1,2% da população brasileira possui o diagnóstico de TEA.
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De acordo com o neurologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, Edson Issamu Yokoo, diferentemente das crianças — cujo comportamento autista costuma ser mais visível —, o adulto no espectro desenvolve estratégias de camuflagem social, conhecidas como masking. “O autismo não desaparece, ele se adapta. O adulto autista gasta uma energia mental imensa tentando parecer neurotípico, o que leva à exaustão crônica e, muitas vezes, a diagnósticos equivocados de ansiedade ou depressão”, explica o especialista.
Os sinais em adultos tendem a se manifestar no colapso das funções executivas e no alto custo cognitivo e emocional. A persistente tentativa de se adequar a normas sociais leva a quadros de exaustão e dificuldades na gestão da vida adulta. Confira abaixo os cinco sinais para observar.
1. Exaustão pós-social
O esforço despendido para imitar interações sociais e disfarçar comportamentos associados ao TEA resulta em um esgotamento total. Esse cansaço não é apenas físico, mas mental e emocional, surgindo após eventos sociais, mesmo aqueles percebidos como breves. “A necessidade de shutdown (retirada total) ou meltdown (sobrecarga com perda de controle) após a exposição social torna-se um padrão”, explica o neurologista.
2. Dificuldade de autonomia
As funções executivas — que englobam planejamento, organização e execução — são frequentemente prejudicadas. Isso se traduz em uma luta constante com a organização de tarefas cotidianas e responsabilidades. “Alguns exemplos incluem a gestão financeira e a manutenção do lar. A chamada ‘paralisia da tarefa’ é a incapacidade de iniciar atividades importantes, mesmo quando a pessoa reconhece a urgência delas”, esclarece o médico.
3. Rigidez cognitiva
A necessidade de previsibilidade e estrutura é uma característica central. Dificuldades extremas surgem ao lidar com imprevistos, mudanças de planos de última hora ou ruídos ambientais fora de controle. “Esta inflexibilidade pode levar a altos níveis de estresse e manifestar-se como irritabilidade, por vezes confundida com transtornos de humor ou ansiedade generalizada”, ressalta Yokoo.
4. Sinais sensoriais discretos (stimming)
O stimming refere-se a movimentos autoestimulatórios e repetitivos para regulação emocional. Na vida adulta, ele se torna mais sutil e socialmente aceitável para evitar estigmas. “Em vez de balançar o corpo, manifesta-se como balançar o pé incessantemente, morder a bochecha, torcer o cabelo ou manipular pequenos objetos. A hipersensibilidade a luzes, sons e cheiros continua a impactar a qualidade de vida”, comenta o especialista.
5. Falha na empatia intuitiva
Adultos autistas costumam desenvolver uma empatia cognitiva, baseada em regras lógicas. Eles sabem o que “devem” dizer em um funeral, por exemplo, mas sentem dificuldade em “ler nas entrelinhas” e interpretar sinais não-verbais. “Isso pode levar a mal-entendidos e à percepção de que são insensíveis ou excessivamente diretos. O hiperfoco em tópicos de interesse específico também pode dificultar a participação em conversas casuais”, explica o neurologista.
Para muitos, o diagnóstico de TEA chega após anos de sofrimento mental ou após o diagnóstico dos próprios filhos. O objetivo da identificação tardia não é a “cura”, mas oferecer um novo olhar sobre a própria história. “Ele traz a validação de que as dificuldades enfrentadas não são falhas de caráter, mas sim uma condição neurológica que exige estratégias de enfrentamento específicas”, conclui Edson Issamu Yokoo.
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