22 de junho de 2026
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‘Cutox’, ‘escrotox’ e mais: harmonização íntima cresce e preocupa médicos

Foto: Reprodução/Magnific
Estética íntima ganha espaço nas clínicas e nas redes sociais, mas levanta debates sobre segurança, indicações e limites médicos

O mercado da estética vem ampliando suas fronteiras e, além da já consolidada harmonização facial, outras regiões do corpo passaram a chamar a atenção do público, como as áreas genitais e anais. Procedimentos como o “cutox” — aplicação de toxina botulínica no ânus —, o “escrotox”, na bolsa escrotal, e o preenchimento vaginal com ácido hialurônico já fazem parte dessa nova oferta estética e vêm ganhando espaço nas redes sociais e nos consultórios.

Ao mesmo tempo em que essa tendência se populariza, ela também acende debates entre especialistas. O avanço dessas intervenções divide opiniões de urologistas, ginecologistas, proctologistas, biomédicos e fisioterapeutas, que apresentam visões distintas sobre os limites anatômicos, os possíveis resultados estéticos e, principalmente, a segurança dos pacientes.

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A comercialização do “cutox” na internet baseia-se na proposta de modificar a textura da região anal, apresentando resultados visualmente mais lisos. Contudo, a comunidade médica aponta uma divergência conceitual importante em relação à estrutura da região.

O que diz a proctologia?

A médica proctologista Clarisse Casali explica que, anatomicamente, as dobras visíveis na região anal não correspondem a rugas de envelhecimento, mas sim a uma característica estrutural necessária para o funcionamento do órgão:

“O ânus tem o excesso de pele normal que é feito para ele abrir e fechar. No ânus, a gente precisa ter um tônus, o músculo precisa ter uma força normal, e você relaxar essa força não vai fazer com que ele tenha menos rugas, porque na verdade a ruga é a pele. Se a pessoa não tem essa prega, ele não consegue abrir. Aquilo não é flacidez.”

A proctologista destaca que, embora a toxina botulínica também tenha indicações terapêuticas em alguns casos de saúde, o principal risco da aplicação inadequada na região é a incontinência fecal, com perda do controle de gases e fezes. Segundo ela, como o botox atua promovendo relaxamento ou paralisia da musculatura, se atingir o complexo esfincteriano em planos incorretos ou em doses excessivas, pode comprometer o tônus muscular e afetar a função de continência.

“Esse risco de incontinência é muito raro em ambiente controlado, porque se trata de uma dose baixa e de aplicação superficial. Quando feita dessa forma, também não há impacto funcional importante. Mas, por outro lado, também não se observa um efeito estético relevante”, pondera Casali.

Foto: Reprodução

A prática estética nas clínicas

Profissionais que atuam na área de harmonização, como a biomédica Fernanda Prevedello, relatam que a demanda em clínicas é frequente e foca no bem-estar e no conforto íntimo. Segundo Prevedello, o relaxamento do esfíncter é buscado principalmente por mulheres casadas com o objetivo de reduzir o desconforto físico durante as relações sexuais.

Para evitar prejuízos ao controle fisiológico do paciente, a biomédica afirma que a segurança reside na profundidade da agulha. “Se tiver aplicação errada, sim, a pessoa vai ter esse relaxamento indesejado. Por isso que ele é feito bem superficialmente. É só mesmo na camada bem da pele. Aplicando superficial não tem problema algum”.

A fisioterapeuta dermatofuncional Marina Carlis Coccetrone, que também realiza o procedimento, concorda que o conhecimento técnico é o diferencial para evitar intercorrências. Ela reforça que “existe esse risco se a pessoa não tiver conhecimento”, mas pontua que o foco deve ser a precisão: “Você tem que pegar o músculo certo, que você vai trabalhar a profundidade certa para atingir o músculo interno. Então, tem agulha certa, profundidade certa e a quantidade certa”.

Quando o botox anal tem indicação terapêutica?

Apesar das divergências sobre o uso estético, todos os profissionais concordam que a toxina botulínica cumpre um papel consolidado no tratamento de patologias específicas.

Entre as indicações terapêuticas validadas pela medicina estão:

  • Fissuras anais: Lesões na mucosa causadas por fezes endurecidas ou musculatura excessivamente tensa (hipertonia). O botox relaxa o esfíncter anal interno, reduzindo a dor e permitindo a cicatrização do tecido.
  • Pós-operatório: Utilizado em cirurgias de hemorroidas para evitar espasmos e dores pós-evacuação.
  • Anismos: Disfunção em que o paciente apresenta uma incoordenação e não consegue relaxar o músculo de forma voluntária para evacuar.
  • Dispareunia anorretal (dor na relação): A proctologista destaca que recebe muitos pacientes que relatam dor persistentem no ato sexual. “A gente faz uma dose muito baixa, porque não obrigatoriamente é uma pessoa que tem o ânus apertado, só para não travar na hora. É um fim que traz muito conforto e que não é um fim terapêutico [de doença], mas que realmente muda a vida das pessoas”, diz Casali.
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“Escrotox” e remodelação peniana

Os procedimentos voltados para o público masculino envolvem a aplicação de substâncias na bolsa escrotal e no corpo do pênis, gerando posicionamentos distintos entre o setor de harmonização e as sociedades médicas. A técnica batizada de “escrotox” consiste na injeção de botox na região escrotal. Sob a ótica das clínicas de estética, Prevedello descreve que o objetivo é relaxar o músculo dartos (responsável pela contração térmica do saco escrotal) para dar um aspecto mais liso e amenizar a flacidez decorrente da idade.

Além disso, a biomédica detalha a aplicação voltada para o pênis conhecido como grower (aquele que se retrai significativamente quando em estado flácido). “A gente utiliza o botox para fazer o relaxamento do pênis, deixar ele mais comprido. Ele fica aparentando maior quando fica flácido, então já aumenta uns bons centímetros e eles já ficam bem felizes, já aparece mais na cueca, na sunga”, explica.

O que diz Sociedade Brasileira de Urologia?

A visão científica oficial traz ressalvas a essas práticas. O urologista Leonardo Seligra, membro da Disciplina de Estética Genital da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), esclarece que a utilização da toxina botulínica na estética genital masculina é classificada como experimental e não possui respaldo técnico de sociedades médicas.

A ideia do uso da toxina botulínica na estética vem da dermatologia, onde a gente sabe que a aplicação em algumas regiões musculares vai ter uma repercussão na pele. Daí surgiu a ideia de tentar usar isso de maneira estética no genital. Então, isso é, até que se prove o contrário, considerado experimental, porque a gente não encontra estudo científico que mostre esse tipo de utilização.

Seligra alerta para os riscos potenciais decorrentes da falta de dados científicos de longo prazo sobre o procedimento na região testicular:

• Risco à fertilidade: “Como é numa região relacionada ao testículo, a gente também não sabe o que isso pode ter impacto na fertilidade futura, na produção de espermatozoides, principalmente se houver uma injeção em planos inadequados, um plano mais profundo que acabe pegando os testículos.”

• Perda de função: O urologista enfatiza que o mecanismo de ação da medicação é paralisar. Se injetada incorretamente, pode enfraquecer a musculatura pélvica, provocando alterações miccionais e impactos imprevisíveis na própria dinâmica da ereção.

Grossura x comprimento

No que diz respeito ao tamanho do pênis, há um alinhamento técnico entre os médicos e os profissionais de estética: nenhuma substância injetável altera o comprimento do pênis em estado de ereção.

A biomédica detalha que o foco dos procedimentos na área é a circunferência: “O tratamento engrossa muito mais que aumenta, que na verdade é o que importa mais durante a relação. Ele chega ali de 3 a 5 centímetros de volume na primeira sessão, mas depende da quantidade que a gente vai colocar e da elasticidade para comportar o produto. Ele é feito bem na camada abaixo da pele, não influencia em nada interno”, diz Prevedello.

Seligra confirma que o ganho de circunferência através do ácido hialurônico possui melhor documentação, mas reforça a necessidade de triagem rigorosa e contraindica fortemente o uso de substâncias de caráter definitivo. O urologista lembra que o Conselho Federal de Medicina proíbe a aplicação de PMMA (polimetilmetacrilato) para fins estéticos genitais devido ao risco de reações inflamatórias graves, rejeições teciduais e complicações que podem resultar em deformidades permanentes.

Foto: Reprodução

Harmonização vaginal

Já na estética íntima feminina, a principal queixa nos consultórios e clínicas envolve a perda de volume e a flacidez dos grandes lábios vulvares. A ginecologista Ana Carolina Romanini, especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela FEBRASGO (Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia), a biomédica Fernanda Prevedello e a fisioterapeuta Marina Coccetrone relatam uma mudança perceptível no perfil das pacientes após a popularização de medicamentos injetáveis para emagrecimento, como Ozempic e Mounjaro.

Segundo elas, o emagrecimento rápido e acentuado pode levar à redução significativa dos coxins de gordura do corpo, impactando diretamente a sustentação e o volume da região vulvar. “Depois das canetas, tudo ficou muito mais flácido. A região íntima envelhece da mesma forma que o rosto. Muitas mulheres chegavam aqui praticamente sem os grandes lábios, sem estrutura de sustentação”, relata a biomédica.

Romanini, membro da Clínica Ginelife, faz uma distinção técnica sobre as abordagens mais indicadas nesses casos e explica por que o botox não é a principal escolha para tratar a queixa estética da vulva: “Quando aplicamos botox, há um efeito de paralisia muscular. E na região íntima feminina o que predomina é a flacidez, não a contração. Os grandes lábios perdem volume e os pequenos lábios acabam ficando mais evidentes. O ácido hialurônico entra justamente para repor esse volume em áreas que ficaram ‘vazias’. Por isso, para essa indicação estética, usamos muito mais o ácido hialurônico ou o laser do que a toxina botulínica”, afirma.

Prevedello acrescenta que a reposição de volume nos grandes lábios também pode ter um efeito funcional, ao atuar como uma espécie de barreira mecânica, reduzindo o atrito com roupas e ajudando a proteger a entrada do canal vaginal contra agentes externos.

A ginecologista também chama atenção para a necessidade de cautela em qualquer intervenção na vulva, citando estudos anatômicos recentes que detalharam a complexa rede de inervação da região do clitóris: “Eles mostraram que a inervação do clitóris é muito mais complexa do que se imaginava, com múltiplas ramificações. Ao entender essa rede nervosa, precisamos ter bastante cautela. Os ramos que seguem para o clitóris também se conectam aos pequenos lábios. Então, qualquer cirurgia estética ou preenchimento feito sem critério pode interferir na sensibilidade e impactar o prazer sexual e o orgasmo”, explica.

A médica defende que procedimentos como a ninfoplastia — realizada cirurgicamente ou com tecnologias a laser — devem ser indicados caso a caso, sempre com foco funcional e realizados exclusivamente por profissionais habilitados para atuar em estruturas anatômicas sensíveis.

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