14 de janeiro de 2026
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Flávio Jr

De Y-jurerê-mirim a Florianópolis: Um percurso de nomes e narrativas

Mapa português – 1640.

Antes que velas brancas riscassem o horizonte, empurrando as grandes naus e caravelas. Antes mesmo que mapas europeus tentassem dar forma ao sul do mundo, a Ilha de Santa Catarina já era habitada por povos que viviam com intimidade com a natureza. Uma terra fértil beijada pelos ventos e as águas em silêncio. Neste pedaço de terra viviam os carijós que liam a paisagem vivada forma que viam e sentiam.

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Como interpretavam o meio, para eles a ilha era Y-jurerê-mirim, a “boca pequena de água” Essa expressão traduzia a delicadeza dos canais, das enseadas ou até mesmo o canal estreito que separava esse pedaço de terra do continente. Sempre com uma relação íntima entre terra e mar, eles também chamavam a ilha de Meiembipe, “montanha perto do mar”. Esse nome exaltava as elevações verdes que emergiam quase diretamente das águas salgadas. Muito mais que designações geográficas, esses nomes demonstravam pertencimento e harmonia com o meio.

Com a chegada dos primeiros navegadores portugueses, franceses, espanhóis e holandeses, a partir do século XVI, novos nomes foram dados. Ao contrário de descobridores, esses homens sobrepunham o que já existia. Vendo a abundância de aves aquáticas passaram a chamar essa terra de Ilha dos Patos, Porto dos Patos, Baía dos Patos ou até mesmo Golfo dos Patos. A Denominação Ilha de Santa Catarina surgiu em 1526, com a passagem do navegador Sebastião Caboto. Acredita-se que por devoção a santa, que leva o mesmo nome, e em homenagem a esposa, Catalina de Meldrano. Um ato que mesclou afetos, fé, mas principalmente o poder sobre a terra.

Nossa Senhora do Desterro

O primeiro povoado na Ilha surgiu por volta de 1673 a partir da chegada do bandeirante paulista Francisco Dias Velho. Em 1726, ao ser elevado à categoria de vila, recebeu o nome de Vila de Nossa Senhora do Desterro. Após a morte de Dias Velho, nas mãos de piratas, a povoação decaiu e quase desapareceu. Um registro dessa situação foi do navegador francês, Amédée François Frézier, que em 1712 encontrou apenas 15 sítios onde viviam “147 brancos”.

A Ilha teve um novo impulso após a chegada do brigadeiro José da Silva Paes, primeiro governador da Capitania de Santa Catarina. Ele recebeu a missão de construir fortificações para defender o porto, tanto pelo Sul como pelo Norte. Da mesma forma, foi incumbido de conduzir a colonização sistemática da região. Então por determinação da Coroa Portuguesa colonos foram trazidos do Arquipélago do Açores.

Cidade do Desterro, 1865, Joseph Bruggemann.

O nome do povoado gerava controvérsias, pois “desterro” lembrava punição ou exílio. Mesmo assim, no dia em 20 de março de 1823, a vila foi elevada a condição de cidade, e passou a ser chamada de Cidade do Desterro. A cidade teria o nome alterado mais uma vez, mas a custa de sangue. Em 1894, após o massacre de Anhatomirim que foi ordenado por Floriano Peixoto o então presidente, veio o nome de Florianópolis. Uma mudança encabeçada pelo governador da época, Hercílio Luz, e referendada pela Assembleia do Estado. Essa foi uma forma de acalmar o ímpeto ditatorial de Peixoto.

Assim, entre palavras indígenas, nomes de santos, descrições de navegadores e imposições políticas e sangue, a ilha foi sendo rebatizada inúmeras vezes. Cada nome revela uma camada da história. Mas, nunca devemos esquecer que antes de ser cidade, vila ou capital, este território já era casa, caminho e paisagem viva de homens e mulheres que aqui estavam muito antes dos primeiros europeus.

           

             

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