23 de janeiro de 2026
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Flávio Jr

Do dragão da ilha ao encanto com a banana

Navio russo Nadezhda. Imagem: itboat.com.

O sabor do Japão há muito tempo ganhou o paladar das pessoas que moram em Florianópolis. Não dá para negar que as fatias delicadas de peixe cru, em arroz moldado com precisão em algas. Mas, essa intimidade com o Japão, que hoje passa pelo paladar, começou muito antes na Ilha de Santa Catarina e não foi à mesa, chegou pelo mar. Em 1803, quando a cidade ainda se chamava Vila Nossa Senhora do Desterro, chegaram os primeiros japoneses que pisaram na América do Sul. Eles deixaram registros com uma visão oriental sobre esta terra que chamaram de “Ilha de Sankateríni”.

Na visão deles era um local onde homens e mulheres andavam descalços, onde os morros eram cobertos por árvores abundantes e macacos de rabos compridos saltavam entre os galhos. Viram casas de pedra com telhados de madeira de cerejeira rachada ao meio. Na verdade, um detalhe que carrega uma ironia poética: a cerejeira, símbolo tão profundo do Japão, aparecia ali como abrigo em terras distantes.

Aqui ficaram surpresos com “um filhote de dragão, com pele grossa e escura, escamas e espinha no rabo”. Assim descreveram o jacaré presente nas áreas alagadas e baixios da Ilha. “A sua boca comprida era cheia de dentes desencontrados. Em cima dos olhos tinham coisas que se pareciam com calos (…) que se transformam em chifres quando crescem. O bicho vivia no mar e nas montanhas e chegava a “caçar e devorar homens”. As frutas também causaram surpresa, como a banana. Eles não sabiam se os “frutos compridos que ficam unidos num cacho” eram “uma erva ou uma árvore”.

Acima de tudo sobreviventes

Esses viajantes improváveis não eram comerciantes nem exploradores, mas sobreviventes. Marinheiros do Wakamiya-maru, um navio japonês lançado ao acaso do destino após uma tempestade em 1793. A tripulação ficou seis meses à deriva e foi resgatada por um navio russo perto das ilhas Aleutas, entre o golfo do Alasca e o mar de Bering. Após viver quase uma década na Rússia os quatro japoneses foram voluntários para fazer parte da tripulação do Nadezhda, que seria o primeiro navio russo a dar a volta ao mundo. Na expedição, comandada pelo navegador Adam Johann von Krusenstern (1770-1846) e patrocinada pelo czar Alexander 1º, viram uma oportunidade de voltar para casa.

O Nadezhda, que significa Esperança em russo, foi o primeiro realizou a expedição de volta ao mundo de 1803 a 1806. Atualmente é um navio escola da marinha russa. Imagem: itboat.com

No caminho cruzaram oceanos, passaram pela Europa e, no dia 22 de dezembro de 1803, ancoraram em Desterro, após cruzar o Oceano Atlântico e onde permaneceram por 71 dias. Junto com eles estava um quinto nipônico que decidiu abandonar a viagem com medo de ser perseguido no Japão pois tinha se convertido ao cristianismo. Após a parada na Ilha, para reabastecimento de víveres e reparos, a embarcação seguiu viagem, atravessou o Estreito de Magalhães e sangrou os mares do Pacífico. Eles desembarcaram na “terra do sol nascente” em setembro de 1804, no porto de Nagasaki.

Talvez não tenham imaginado que, mais de dois séculos depois, aquela ilha descrita com espanto e curiosidade se tornaria uma das cidades brasileiras mais apaixonadas pela cultura japonesa. Hoje, Florianópolis acolhe o Japão com hashis, sashimis e rituais culinários. Mas antes disso, acolheu homens perdidos no mundo, vindos do outro lado do planeta, que encontraram aqui descanso, observação e memória. Entre o sal do mar e o silêncio das montanhas, a história começou — muito antes do primeiro sushi chegar ao prato.

Imagem: Wikipedia.