18 de abril de 2024
TV Barriga Verde
Clima / Tempo Economia

El Niño: o que esperar do impacto do clima nas safras em 2024

Expectativas são de menores volumes de chuva e condições melhores para o agronegócio

O fenômeno climático El Niño deve seguir atuante e influenciando a região Sul do Brasil ao longo de todo este verão. Caracterizado pelo aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial, o excesso de chuvas, granizo, vendavais e enxurradas provocaram perdas expressivas para o agro catarinense em 2023, e agora as preocupações se voltam a como o El Niño pode afetar as safras em 2024.

O monitoramento da Secretaria de Proteção e Defesa Civil de Santa Catarina aponta que o fenômeno deve seguir atuante. Janeiro, fevereiro e março devem ter um período em que as chuvas vão ficar dentro ou até abaixo da média a depender da região do estado. Já as temperaturas devem ficar acima da média para todo o trimestre.

Produtores e técnicos agrícolas já conhecem os efeitos marcantes provocados pela sua influência, em que a interação entre clima e produtividade agrícola ficam bastante evidentes. Na cultura do trigo, por exemplo, as operações de colheita se encerraram no final de dezembro, impactadas negativamente pelo excesso de chuvas. Segundo o Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola – CEPA da Epagri, as perdas em produção acumuladas já ultrapassam o percentual de 30% quando comparado à safra passada.

Segundo o órgão, para a culta da soja, caso o cenário não se normalize em breve, é bem provável que o atraso no plantio resulte na diminuição da produtividade média das lavouras, face à redução do período de crescimento e desenvolvimento da planta, além de coincidir com períodos de maior incidência de pragas e doenças, exigindo maior controle e aumento dos custos.

No caso do milho, tanto a safra de verão quanto a safrinha podem ser afetadas pelo El Niño. Com a proximidade do término do período de plantio da safra de verão, a maioria das áreas tem apresentado desenvolvimento satisfatório até o momento. No entanto, chuvas excessivas têm causado interrupções de operações de plantio, erosão do solo, necessidade de replantios e diminuição de stand de plantas, interferido nas práticas culturais usualmente empregadas. Para o CEPA, é urgente a intensificação do uso de práticas de conservação de solo e água, como por exemplo plantio sobre palhada (plantio direto) e escalonamento de semeadura, que são ações que podem contribuir para a mitigação dos efeitos prejudiciais e os prejuízos econômicos.

No mercado, a safra de dezembro de 2023 sofreu recuos nos preços recebidos pelos produtores rurais em comparação com as cotações de dezembro de 2022:

  • Soja: 23%, de R$ 171,92 para R$ 132,58 por saca;
  • Milho: 31%, de R$ 84,24 para R$ 58,04 por saca;
  • Trigo: 30,3%, de R$ 90,43 para R$ 63,03 por saca.

“Esses produtos são commodities e a formação de seus preços depende não apenas de fatores internos, mas, sobretudo, de aspectos relacionados ao mercado internacional”, explica João Rogério Alves, Analista de Socioeconomia do CEPA. Ele explica que o cenário para 2024 se mostra favorável no contexto macroeconômico, o que pode atenuar os prejuízos financeiros dos produtores em decorrência dos efeitos de fenômenos climáticos extremos, com fatores como a queda da taxa Selic, crescimento do PIB e controle da inflação.

Segundo Alves, para o início de 2024, a esperança dos produtores é que o clima colabore para que não haja mais problemas com os cultivos que estão à campo. “A previsão dos meteorologistas indica que no mês de janeiro, para a região Sul do país, os volumes de chuva previstos tendem a manter os níveis de água no solo elevados, mas com menor probabilidade de excedentes. Com isso, a redução do volume de chuva em relação aos meses anteriores pode favorecer o término da semeadura das culturas de primeira safra. Para o plantio da segunda safra, de menor expressão para o agro catarinense, a expectativa é que as condições climáticas sejam melhores do que aqueles que temos presenciado até o momento desse ano agrícola”, finaliza.

El Niño e La Niña

A partir de março, o outono chega com mudanças na situação meteorológica. Segundo o meteorologista-chefe da Secretaria de Proteção e Defesa Civil, Felipe Theodorovitz, é esperado que algumas frentes frias comecem a influenciar o tempo em Santa Catarina. “A partir desse período, já é normal que tenhamos uma diminuição das temperaturas com relação aos meses anteriores e partindo pro outono e pro inverno com as massas de ar ficando inclusive mais frequentes”.

Ele explica que o El Niño e a La Niña são fenômenos de escala global que trazem algum tipo de impacto para todas as regiões do globo terrestre. Isso mexe com padrões de temperatura e de chuvas. O El Niño age tornando as águas do Oceano Pacífico Equatorial mais aquecidas e também altera o padrão de circulação dos ventos na atmosfera. “Já na La Niña ocorre justamente o contrário: as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais resfriadas do que o normal e esse resfriamento também altera o padrão de circulação do dos ventos na atmosfera. Aqui em Santa Catarina, a tendência é que a gente tenha uma frequência menor das chuvas e também a intensidade desses volumes tendem a diminuir”, explica Theodorovitz, lembrando que isso não significa que as chuvas não ocorram, mas representa períodos mais prolongados de estiagem.

Nos últimos anos foi justamente isso que aconteceu. Entre 2019 e o início de 2023, houve uma influência de uma La Niña que acabou favorecendo um período prolongado de estiagem, principalmente no grande Oeste Catarinense. “E já ao longo do ano de 2023 nós passamos por um período de transição em que as águas do Oceano Pacifico Equatorial voltaram ao período de neutralidade, voltaram ao normal. E a partir do mês de junho, julho, os oceanos voltaram a ficar mais aquecidos e a influência aqui pra região Sul do Brasil e Santa Catarina começou a ser sentida já no segundo semestre de 2023. Não por acaso, no mês de outubro e novembro nós tivemos grandes volumes de chuva sendo observados durante um período prolongado de quase dois meses de chuvas, bastante volumosas e frequentes no nosso estado”, finalizou o meteorologista.

 

Foto: Ricardo Wolffenbuttel / Secom

Economia

Clima / Tempo

Economia

Economia

Economia

Clima / Tempo