As histórias que permeiam a Ilha de Santa Catarina, muitas vezes, começam ao som do mar. Nem sempre são tranquilas, pois também trazem o eco dos canhões ou a fala inquietante de piratas. Pela posição estratégica a Ilha era abrigo, armadilha e promessa bons lucros. Aqui bucaneiros espreitaram frotas espanholas e portuguesas que iam e vinham do Rio da Prata, carregadas de riquezas do Novo Mundo.
As histórias começam em 1591 com o corsário ingleses, e Almirante Inglês, Thomas Cavendish, que fez da ilha um ponto de cobiça e vigilância. Ele atuou em diversos pontos do litoral brasileiro, mas esteve muitas vezes na Ilha Santa Catarina. Ele costumava se abrigar nas águas da praia do Canto Grande e da Tainha, que hoje pertencem a Governador Celso Ramos. No local que viria a ser a Vila de Nossa Senhora do Desterro chegou a destruir engenhos e queimar plantações. Documentos no Museu da Navegação na Inglaterra apontam a possibilidade de existir algum tesouro roubado por Cavendish ainda enterrado na encosta do Morro do Macaco.
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Em 1686 surge um novo episódio envolvendo um navio pirada, mas marcado por sangue e dor. O Capitão inglês Thomas Frins, um corsário veterano de pilhagens bem-sucedidas nas cidades do Peru e da Colômbia, decide separar-se da esquadra que fazia parte. Ele atravessou o temido Estreito de Magalhães para seguir pelo Oceano Atlântico rumo à Inglaterra.

O trajeto cobrou da embarcação e da tribulação, que exausta ficou marcada pelo sal, fogo e pelas feridas da longa jornada. Ao passar pela Ilha de Santa Catarina o capitão optou por uma parada tática. A ancoragem foi ao Norte da Ilha, mais precisamente na praia de Canavieiras, que oferecia abrigo, madeira e parecia isolada.
Para facilitar os reparos da nau, parte da carga foi retirada da embarcação, incluindo o espólio acumulado durante meses de ataques às cidades andinas. Os piratas não sabiam que não estavam sós, quando índios carijós avistaram os estrangeiros levaram a notícia ao governador da recém fundada Vila do Desterro, Francisco Dias Velho. Com uma pequena patrulha armada de mosquetes, Dias Velho organizou uma emboscada precisa. O ataque foi rápido e eficaz: parte dos piratas foi capturada, enquanto outros fugiram às pressas. Já os tesouros foram confiscados pela autoridade local. Existem diversas versões para o destino dos prisioneiros. Em uma delas, Robert Lewis e seus homens foram enviados ao Rio de Janeiro, onde foram julgados e, por acordo, deportados à Inglaterra.
No ano seguinte, 1687, o passado retornou com violência e Lewis, embriagado pela vingança, retornou para Desterro. Em um novo navio atracou na Praia de Fora, a atual Beira-Mar Norte, e atacou a Vila do Desterro. Ouve resistência, novamente liderada por Dias Velho, e os invasores foram repelidos. Contudo, durante a noite os facínoras se moveram pelas sombras e tomaram a Vila de surpresa. Os moradores foram capturados e os poucos conseguiram escapar, buscaram refúgios nas matas.
Como último gesto de vingança, os piratas ateiam fogo a quase todas as edificações da localidade. A antiga Vila do Desterro amanheceu em cinzas e desolada. A maioria dos sobreviventes abandonou a região, incluindo o pelo filho de Dias Velho. Eles buscaram abrigo em Laguna levando na memória o horror e a dor da perda.
Francisco Dias Velho foi levado para a pequena capela dedicada a Nossa Senhora do Desterro, situada no mesmo local onde hoje existe a Catedral Metropolitana no Centro de Florianópolis. Naquele local, ocorreu um dos episódios mais trágicos da história da ilha. Dias Velho foi forçado a assistir à violência cometida contra suas filhas, em seguida foi executado com um tiro na cabeça.
“O dia em que a Ilha de Santa Catarina mudou de língua”
E se a Ilha de Santa Catarina tivesse sido espanhola? Qual sotaque ecoaria entre os morros, como nossas praias seriam chamadas e o que seria da nossa identidade? Há 249 anos, essas perguntas quase deixaram de ser imaginação. Por anos Portugal fortificou a Ilha, mas em fevereiro de 1777, uma força desproporcional…





