“O Brasil está maduro para enfrentar a escala 6×1”, diz o presidente da Câmara, Hugo Motta. Ele enviou a proposta sobre o tema para análise da CCJ / Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
O Congresso Nacional voltou a discutir uma pauta que mexe diretamente com a vida de milhões de brasileiros: o possível fim da escala de trabalho 6×1. A proposta, que prevê reduzir a jornada semanal e ampliar o descanso dos trabalhadores, reacende um debate antigo, mas cada vez mais atual diante das transformações do mercado e do próprio conceito de qualidade de vida. Hoje, o modelo predominante no país permite jornadas de até 44 horas semanais, com seis dias de trabalho para apenas um de descanso. Trata-se de uma estrutura consolidada ao longo de décadas, especialmente em setores como comércio, serviços e turismo. No entanto, mudanças sociais, tecnológicas e comportamentais têm colocado esse formato sob questionamento.
Tendência mundial
Os defensores da proposta argumentam que o Brasil precisa acompanhar uma tendência mundial de valorização do equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Estudos internacionais mostram que jornadas menores podem aumentar a produtividade, reduzir afastamentos por saúde e melhorar o desempenho profissional. Além disso, há a expectativa de que a redistribuição das horas trabalhadas possa estimular a geração de novos empregos.
Impacto
Por outro lado, o debate está longe de ser consenso. Representantes do setor produtivo alertam para o impacto econômico da medida, especialmente para pequenos e médios empresários. A necessidade de contratar mais funcionários, reorganizar turnos ou arcar com custos adicionais pode pressionar margens já apertadas, principalmente em segmentos que funcionam todos os dias, como o varejo, a construção civil e a agricultura.
Desafio na aprovação
No campo político, a proposta enfrenta um caminho complexo. Por se tratar de uma mudança constitucional, exige ampla maioria no Congresso, o que torna a aprovação um desafio. A tendência mais realista, caso o projeto avance, é a adoção de uma transição gradual, permitindo que empresas e trabalhadores se adaptem ao novo modelo ao longo dos anos. Por outro lado, há também a questão dos dividendos políticos, justamente num período eleitoral.
Mais discussão
O debate sobre o fim da escala 6×1 vai além de números e planilhas econômicas. Ele revela uma discussão mais profunda sobre o modelo de desenvolvimento que o país deseja construir. De um lado, a busca por competitividade e sustentabilidade financeira das empresas. De outro, a valorização do tempo livre, da saúde mental e das relações familiares. No fim das contas, o desafio do Brasil não será apenas decidir se trabalha menos, mas como trabalhar melhor. E essa resposta não virá apenas da legislação, mas da capacidade de diálogo entre governo, empresários e trabalhadores para construir um equilíbrio que permita crescimento econômico sem abrir mão da qualidade de vida.




