20 de julho de 2026
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Cotidiano

Racismo no futebol reacende debate sobre o mito da “Argentina branca” e o apagamento de negros e indígenas

Imagem: Reprodução / Redes Sociais.

Casos envolvendo torcedores e turistas argentinos, inclusive no Brasil, expõem uma discussão que vai além dos estádios e tem raízes na formação histórica e política do país.

Os recorrentes episódios de racismo envolvendo argentinos, dentro e fora dos estádios, voltaram ao centro do debate durante a Copa do Mundo de 2026. A abertura de uma investigação da FIFA, após torcedores hostilizarem com insultos e gestos racistas o streamer norte-americano Speed, reforçou uma discussão que especialistas consideram muito mais profunda do que o comportamento de parte das torcidas: a construção histórica do chamado mito da “Argentina branca”.

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O episódio aconteceu no início de julho, mas está longe de ser um caso isolado. Nos últimos anos, manifestações racistas protagonizadas por torcedores argentinos têm se repetido em competições como a Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana, muitas delas envolvendo clubes brasileiros. Jogadores de equipes como Palmeiras, Fluminense, Internacional, Corinthians e São Paulo já foram alvo de ofensas racistas em partidas disputadas na Argentina ou contra equipes do país. Em 2024, outro caso ganhou repercussão internacional quando jogadores da seleção argentina entoaram uma música considerada racista contra atletas franceses de origem africana durante as comemorações do título da Copa América. O episódio gerou críticas de federações, jogadores e autoridades esportivas.

Torcedor argentino faz gesto racista contra o streamer norte-americano Speed. Imagem: Reprodução / Redes Sociais.

Fora dos gramados, também houve episódios envolvendo cidadãos argentinos em território brasileiro. No início de 2026, a turista Agostina Páez foi presa em Ipanema, no Rio de Janeiro, acusada de injúria racial contra um funcionário de um bar. O caso repercutiu na Argentina e acabou sendo explorado politicamente. Embora esses episódios alimentem a percepção de que o racismo seria uma característica predominante da sociedade argentina, o fenômeno precisa ser compreendido a partir da formação histórica. Essa análise não apaga o fato de que o racismo é crime e precisa ser combatido.

Agostina Páez. Imagem: Reprodução / Redes Sociais.

A narrativa da “Argentina Branca”

A narrativa de uma Argentina formada essencialmente por descendentes de imigrantes europeus foi reforçada ao longo do tempo. Com isso, houve uma tentativa de apagar a presença histórica de populações negras e indígenas. Diferentemente de outros países latino-americanos, onde a identidade nacional foi construída sobre a miscigenação, a Argentina desenvolveu uma narrativa baseada quase exclusivamente na imigração europeia.

Esse processo teria contribuído para invisibilizar a participação da população negra na história do país. Um dos exemplos mais emblemáticos é María Remedios del Valle, mulher negra que lutou ao lado de Manuel Belgrano nas guerras de independência e chegou a ser reconhecida como “Mãe da Pátria”. Apesar da importância histórica ela permaneceu durante décadas praticamente ausente dos livros escolares. Apenas recentemente teve a imagem estampada nas cédulas de 10 mil pesos.

Apagamento da população negra

O apagamento da população negra argentina ocorreu ao longo do século XIX. Guerras, epidemias, políticas migratórias e a exclusão da memória oficial contribuíram para reduzir a presença afrodescendente e consolidar uma identidade nacional que invisibilizou parte importante da formação do país. Durante o período das Guerras de Independência e, posteriormente, na Guerra do Paraguai (1864-1870), milhares de homens negros e escravizados foram incorporados aos chamados “batalhões de libertos”. Em muitos casos, a promessa de liberdade era usada como incentivo para o alistamento. Registros históricos mostram que esses batalhões costumavam ser enviados para a linha de frente dos confrontos e enfrentavam riscos muito superiores aos de outras tropas. A elevada mortalidade entre os soldados afrodescendentes teve impacto direto na redução dessa população na Argentina.

Soldados afrodescendentes do Paraguai, Brasil, Uruguai e Argentina que lutaram na guerra do Paraguai. Imagem: Reprodução / Redes Sociais.

A situação foi agravada durante a Guerra do Paraguai, considerada um dos conflitos mais sangrentos da história da América do Sul. Historiadores apontam que grande parte dos homens negros remanescentes foi mobilizada para o combate, sofrendo perdas expressivas ao longo da campanha militar. Os sobreviventes enfrentaram outro desafio após o retorno das guerras. Muitos passaram a viver em áreas periféricas e precárias de Buenos Aires, marcadas pela pobreza e pela falta de infraestrutura sanitária. Essas condições tornaram a população especialmente vulnerável à epidemia de febre amarela de 1871, que atingiu duramente os bairros mais pobres da capital argentina.

Incentivo da imigração europeia

Outro fenômeno social que reforça a tese é que o Estado argentino passou a incentivar a imigração em massa de europeus, sobretudo italianos e espanhóis, como parte de um projeto de modernização e ocupação territorial. Essa política foi acompanhada por uma narrativa que valorizava a origem europeia da população e minimizava ou ignorava as contribuições de afrodescendentes e povos indígenas para a formação do país.

Esse processo ficou conhecido entre pesquisadores como “embranquecimento”, tanto do ponto de vista demográfico quanto cultural. Ao longo das décadas, livros didáticos, documentos oficiais e discursos políticos passaram a reforçar a ideia de uma Argentina predominantemente branca e europeia, ocultando a participação da população negra em momentos decisivos da história nacional.

Imigrantes europeus desembarcando na Argentina. Imagem: Wikipédia.

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