Bernardo Pessi (Avaí) e Eduardo Mafra (Figueirense) comandam hoje os dois maiores rombos financeiros da história do futebol da capital catarinense
O cenário de terra arrasada que sufoca os dois clubes em 2026 compartilha a mesma raiz: o acúmulo de passivos colossais gerados por administrações passadas. Anos de amadorismo e descontrole orçamentário sufocaram o caixa de ambos, tornando a rotina dos atuais mandatários uma missão quase impossível.
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Em uma amarga coincidência, tanto o Leão quanto o Furacão lidam com dívidas que rondam a casa dos R$ 300 milhões. O reflexo desse teto financeiro estourado é idêntico: os dois estão amparados por Recuperações Judiciais (RJ), sofrem com patrimônios penhorados, bloqueios bancários constantes, folhas salariais atrasadas e, para piorar o panorama esportivo, a queda conjunta para a Série C do Campeonato Brasileiro.
Embora o declínio seja resultado de um efeito dominó de erros, a negligência financeira das últimas duas décadas é o fator predominante nessa derrocada rumo ao colapso. Diante dessa realidade, os números atuais impõem um choque de lucidez: Avaí e Figueirense precisarão redimensionar suas estruturas e pretensões no mercado, sob o risco de nunca mais conseguirem montar elencos competitivos.
O preço da competitividade e a realidade do mercado
Buscar reforços técnicos e honrar os compromissos em dia virou o maior gargalo dos clubes. O ecossistema do futebol inflacionou. Atualmente, equipes que disputam a terceira divisão nacional mantêm folhas mensais que superam os R$ 2 milhões — caso do Botafogo da Paraíba —, enquanto o patamar mínimo para figurar com chances de acesso na Série B exige um investimento anual de aproximadamente R$ 48 milhões.
Diante disso, surge o questionamento: como agremiações como Athletic, Botafogo-SP e São Bernardo conseguem sustentar essas cifras e manter seus balancetes no azul?
A resposta passa por três pilares:
- Modelo corporativo: Operam como SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol), o que significa que o fluxo de caixa não depende apenas de receitas associativas, contando com o aporte direto de investidores.
- Ficha limpa: Não carregam o fantasma de dívidas históricas acumuladas. Toda receita que entra é revertida em futebol, o que viabiliza elencos qualificados e salários rigorosamente em dia.
- Atratividade para o mercado: Empresários e jogadores priorizam projetos financeiramente estáveis. É essa segurança que faz com que equipes como Ferroviária-SP, Floresta-CE e Uberaba-MG entrem nas competições com elencos tão estruturados.
Diante desse espelho, Avaí e Figueirense se tornaram menores que essas equipes? Sob a ótica puramente desportiva e estrutural, a resposta é sim. Hoje, a dupla da capital fatura menos e deve muito mais. O peso da camisa e a tradição das arquibancadas perderam o poder de decidir partidas de futebol.
O Figueirense, historicamente abraçado pela massa, hoje sofre para estabilizar sua base de sócios-torcedores acima da marca dos 3 mil ativos e depende de ingressos subsidiados para movimentar o Orlando Scarpelli. O Avaí enfrenta um dilema semelhante na Ressacada.
Somadas as quatro engrenagens tradicionais de receita — cotas de televisão, patrocínios, quadro social e transações de atletas —, a projeção é que os dois rivais, juntos, não arrecadem mais do que R$ 30 milhões em 2027. Individualmente, o faturamento deve ficar abaixo dos R$ 15 milhões anuais — um montante que mal cobre os juros e amortizações das dívidas, que exigem pagamentos mensais superiores a R$ 1 milhão.
Dessa forma, o espólio destrutivo deixado por décadas de irresponsabilidade administrativa desabou sobre os ombros de Bernardo Pessi e Eduardo Mafra. Caberá a eles a complexa engenharia de resgatar os dois gigantes do futebol catarinense do período mais turbulento e humilhante de suas trajetórias centenárias. Porém isso não os exime de culpa e responsabilidade. O desafio de fazer mais com muito menos também faz parte do “negócio” futebol e ambos tem falhado nisso.
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