Algumas febres deixam marcas, memórias e histórias para contar. A corrida pelas figurinhas da Copa do Mundo é uma delas. No último fim de semana, acompanhando meu filho em uma jornada por diferentes pontos de troca de figurinhas na região, encontrei muito mais do que colecionadores em busca de cromos raros. Presenciei encontros, conversas e risadas. Vi pais e filhos sentados lado a lado, espalhando montes de figurinhas sobre mesas ou até mesmo sentados no chão. Vi mães negociando repetidas com habilidade de especialistas. Vi avós ajudando netos a encontrar aquele jogador que falta para completar a página tão aguardada.
Em tempos de telas onipresentes e conexões digitais, os álbuns da Copa parecem promover um movimento inverso. Fazem as pessoas saírem de casa, ocuparem praças, cafés, shoppings e supermercados. Fazem desconhecidos iniciarem conversas com a simplicidade de uma pergunta universal: “Tem repetida para trocar?”.
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O álbum é, claro, uma coleção, mas seria injusto defini-lo apenas assim. Cada figurinha colada carrega uma pequena história. No pacote aberto vem a expectativa ou a chance de uma possibilidade de troca bem-sucedida com a busca insistente pela peça que falta. As crianças aprendem sobre persistência e paciência. Já os adultos revisitam lembranças da própria infância.
Entre pilhas de cromos e negociações animadas, surgem também momentos de convivência cada vez mais raros. Casais de namorados dividem a tarefa de completar páginas. Famílias inteiras transformam a coleção em programa de fim de semana e amigos se reencontram. Avós contam histórias de outras Copas. Crianças descobrem ídolos e países que talvez jamais tenham ouvido falar.
No fim das contas, a verdadeira raridade não está na figurinha difícil de encontrar. Está no que ela proporciona. Porque, enquanto todos procuram completar os álbuns, talvez preenchemos algo ainda mais valioso: o tempo compartilhado entre pessoas que escolhem viver juntas uma pequena paixão coletiva. E é justamente por isso que, a cada Copa, a velha febre das figurinhas insiste em voltar. Não apenas para colecionar jogadores, escudos e seleções. Mas para colecionar momentos.
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