Com avanço da inteligência artificial, vídeos e imagens cada vez mais realistas podem influenciar o voto e dificultar a identificação de conteúdos falsos
Observe o seguinte cenário: uma repórter vai à rua e pergunta a várias pessoas em quem elas pretendem votar para presidente nestas eleições. Todas apresentam um nome entre os candidatos conhecidos e suas justificativas, que vão desde a expectativa por mais oportunidades até identificação com a origem ou carisma do político. Mesmo conquistando um grande número de visualizações, nem as pessoas nem a repórter nesses vídeos existe de verdade. Elas foram criadas por Inteligência Artificial (IA), segundo levantamento realizado pelo portal Aos Fatos envolvendo o uso dos chamados “deepfakes” para propaganda eleitoral.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) definiu, na última terça-feira (1º), uma importante regra que irá guiar as campanhas eleitorais deste e dos próximos anos: definir o que são deepfakes e quando seu uso será permitido. Este termo não é novo, já foi uma preocupação nas eleições presidenciais anteriores, mas tornou-se um tema central após o acelerado avanço das tecnologias de IA.
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A Corte Eleitoral fixou a tese de que deepfake “pressupõe conteúdo sintético produzido ou manipulado mediante inteligência artificial ou tecnologia equivalente, dotado de grau de realismo ou verossimilhança e destinado a criar, reproduzir ou alterar imagem, voz ou manifestação de pessoa viva, falecida ou fictícia”. O TSE também definiu que a proibição do uso de deepfakes nas eleições exige que o conteúdo seja caracterizado como propaganda eleitoral, ou seja, sirva para favorecer ou prejudicar um candidato.
Hoje não faltam outros exemplos de deepfakes na forma de vídeos e imagens nas redes sociais, que muitas vezes colocam personalidades famosas em situações criativas, satíricas ou até ofensivas. Nas palavras do especialista em IA e fundador da Paris Group, Cleiton Paris, o termo “deepfake” aborda o uso da tecnologia para usurpar ou reproduzir a imagem e a voz de uma pessoa com o objetivo de enganar. “Ou seja, é a criação de um conteúdo falso para fazer parecer que alguém disse ou fez algo que não aconteceu”, detalha. O TSE, no entanto, inclui nesta classificação personagens inexistentes criados por IA com tom de realismo.
Segundo Cleiton, o espaço tomado por este tipo de conteúdo nas redes sociais acelerou exponencialmente nos últimos meses, principalmente após o lançamento do Nano Banana 2, ferramenta de criação do Google. “Até aproximadamente a metade do ano passado, usar uma inteligência artificial capaz de clonar a imagem ou a voz de alguém exigia conhecimento técnico, domínio de ferramentas específicas e profissionais especializados. Hoje, com uma imagem de boa qualidade e apenas alguns segundos de áudio, qualquer um pode utilizar ferramentas para reproduzir uma pessoa”, explica o especialista.
Essa facilitação no acesso é o que acendeu um alerta na Justiça Eleitoral. Afinal de contas, com infinitas possibilidades de manipulação e uma imagem digital extremamente realista, alavancar ou destruir uma candidatura, ou o próprio processo eleitoral, poderia depender apenas do número de curtidas em um vídeo. “Quando um conteúdo falso é manipulado e não é detectado de pronto que aquilo é falso, aquilo pode se espalhar rapidamente e ter um efeito muito danoso”, destaca Renata Fávere, secretária da Corregedoria Regional do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC).
Os dados revelam o tamanho do problema. No Brasil, uma média de duas publicações contendo deepfakes viram febre nas redes a cada duas semanas, segundo um relatório da Agência Lupa. Durante quase 18 semanas, especialistas e estudantes monitoraram seus próprios feeds e catalogaram 226 posts suspeitos de serem IA. Após verificações, 101 materiais tiveram o uso da tecnologia confirmado, e cerca de 40% deles tratavam de política, tanto nacional quanto internacional. Entre os exemplos, apareceram montagens com figuras públicas pedindo votos, cenas humorísticas e personagens de IA apresentando pesquisas eleitorais falsas.
Como identificar um deepfake?
Desde a popularização dos deepfakes, a imprensa e as autoridades buscaram municiar a população com informações que ajudem a reconhecer quando um vídeo foi manipulado por IA, especialmente em período eleitoral. “Esse é o grande desafio dessa eleição. Orientar o eleitor de que ele tem que ficar muito atento ao que ele recebe porque a manipulação é muito fácil de ser feita e é muito difícil para um leigo, às vezes, detectar se aquele conteúdo é real ou não”, afirma Renata.
O que o especialista em IA destaca, no entanto é que, no atual passo de avanços das tecnologias, já tornou-se praticamente impossível conseguir distinguir os deepfakes mais refinados de imagens reais. Até pouco tempo, recomendava-se utilizar programas e sites capazes de identificar se um conteúdo foi ou não manipulado por IA. Mas, com a velocidade impressionante com que essas tecnologias evoluíram recentemente, este tipo de recurso já tornou-se obsoleto.
Diante disso, para saber se uma informação é real ou mentirosa, observar o contexto em que a imagem foi publicada torna-se mais eficiente do que medir a veracidade dela. “É necessário observar se a fonte é confiável e se o conteúdo apresentado corresponde ao vídeo completo ou apenas a um recorte que pode alterar a compreensão dos fatos”, explica Cleiton Paris. Checar autor, data de publicação, veículos de imprensa confiáveis são estratégias essenciais para não cair ou levar outras pessoas a caírem em uma mentira.
Existe solução definitiva?
A desinformação é há muito tempo a alma de muitos negócios lucrativos, especialmente em meio a eleições em todo o mundo. Associada a uma tecnologia com habilidades quase absolutas de criação e que não param de evoluir, elas passam a ser uma espécie de varinha mágica na mão de pessoas má intencionadas. Entretanto, a IA chegou para ficar e aproveitar o máximo de suas possibilidades positivas, ao mesmo tempo que se aprende de que forma podem ser usadas para o mal, é um caminho possível para viver no futuro com segurança.
“A expectativa é de que as tecnologias continuem avançando e se tornando cada vez mais sofisticadas. O desafio será acompanhar essa evolução e criar mecanismos capazes de garantir transparência e reduzir os riscos de manipulação, sem deixar de aproveitar o potencial positivo da inteligência artificial”, acrescenta Cleiton. Neste contexto, a Justiça Eleitoral não realiza a fiscalização dos conteúdos e tem a posição de intervir o mínimo possível na sua veiculação. Ainda assim, ela conta com o auxílio de órgãos, entidades não-governamentais e dos próprios candidatos ou eleitores para sinalizar quando um conteúdo é mentiroso.
“O candidato, quando detecta uma irregularidade, ele traz para a Justiça Eleitoral por meio de uma ação específica. Isso é analisado pelos nossos juízes, e aí podem determinar a remoção imediata do conteúdo pela rede social, aplicação de multa, enfim, uma série de medidas, dependente de provocação”, explica a secretária do TRE-SC. Renata acrescenta que a população em geral pode denunciar possíveis irregularidades durante as eleições, principalmente relacionadas à propaganda eleitoral, pelo sistema Pardal.

Deepfakes ‘do bem’
A reprodução da imagem de pessoas por meio de IA não está completamente banida das eleições, nem deve ser encarada como algo permanentemente negativo nas redes sociais. Diversas produções de cinema, por exemplo, já abusam dessas ferramentas. Afinal, quando bem utilizadas, elas podem ampliar capacidades e tornar trabalhos mais baratos e acessíveis.
As próprias campanhas eleitorais encontram algumas possibilidades de uso sem infringir a lei. “Ainda que o vídeo próprio tenha tido semelhança e seja muito bem feito, se ele estiver rotulado como IA e não estiver divulgando uma notícia falsa, não há problema. Então, a inteligência artificial até pode ser utilizada, desde que com rotulagem e sem disseminar notícias falsas”, conclui Renata Fávere.
Cleiton Paris vai na mesma direção ao afirmar que nem todo conteúdo criado por IA tem uma intenção maliciosa. “O deepfake estaria relacionado à criação ou manipulação de um vídeo com o objetivo de enganar, enquanto um conteúdo feito por inteligência artificial pode ter uma finalidade legítima e genuína”, afirma o fundador da Paris Group, empresa voltada à formação em Inteligência Artificial aplicada para startups.
O uso de IA para negócios por meio de automações, agentes, novos produtos e mudanças nos processos de gestão, inclusive, será tema de um encontro voltado a CEOs, founders, sócios, diretores e executivos interessados em conhecer como essas ferramentas podem contribuir para os negócios. Realizado pelo Paris Group, o Founders AI Summit oferecerá oito horas de palestras, demonstrações ao vivo e cases de empresários e especialistas no próximo dia 16 de setembro em Itajaí, no Litoral Norte de Santa Catarina. Ingressos estão disponíveis na plataforma Sympla.
A notícia impacta no enfrentamento à violência contra as mulheres, defende escritora
Autora de Guia de Boas Práticas Para a Cobertura Jornalística de Casos de Violência Contra as Mulheres destaca a necessidade de responsabilidade e cuidado da imprensa com o tema
A violência contra as mulheres tornou-se um ponto chave quando o assunto é segurança pública no Brasil. No ano passado, o país bateu mais um recorde de feminicídios, com uma média de 4,3 assassinatos por dia, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em Santa Catarina, somente em 2026 até agora, 35 mulheres tiveram a vida interrompida justamente por serem mulheres.







