Estudo do UNICEF mostra que fatores como pré-natal, influência da família, acesso à analgesia e organização dos serviços de saúde pesam na decisão sobre a via de nascimento
A maioria das brasileiras inicia a gestação desejando ter um parto normal, mas muitas acabam passando por uma cesariana sem indicação clínica. Estudo divulgado nesta segunda-feira (13) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) concluiu que essa mudança de decisão vai além da escolha da gestante e é influenciada por fatores como a qualidade do pré-natal, a influência da família, a participação dos parceiros, o desconhecimento sobre o Plano de Parto, o acesso limitado à analgesia e a organização dos serviços de saúde.
O levantamento, intitulado “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, mostra que a decisão sobre o tipo de parto é construída ao longo da gravidez e depende da interação entre fatores psicológicos, sociais e estruturais. Para o UNICEF, garantir apenas informação às gestantes não é suficiente para reduzir as cesarianas sem indicação médica.
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A pesquisa foi realizada em Belém (PA) e São Paulo (SP) e ouviu 94 gestantes e puérperas, além de 37 profissionais de saúde das redes pública e privada. O estudo também incluiu entrevistas, grupos focais e a revisão de 77 estudos científicos e documentos oficiais sobre parto humanizado. Os resultados reforçam um cenário preocupante: embora dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indicam que sete em cada dez brasileiras desejam o parto normal no início da gestação, mais de 60% dos nascimentos registrados no país em 2024 ocorreram por cesariana, índice quase três vezes superior à média mundial, estimada em cerca de 21%.
Decisão é construída durante a gravidez
Segundo a pesquisa, a escolha entre parto vaginal e cesariana começa ainda no pré-natal, quando a gestante recebe orientações dos profissionais de saúde, conversa com familiares e busca informações na internet e nas redes sociais. O estudo identificou que mães, avós e outras mulheres da família exercem forte influência sobre essa decisão. Os parceiros também influenciam a decisão, mas a baixa participação no pré-natal pode favorecer a defesa da cesariana durante o parto.
Além dos fatores familiares, o levantamento aponta obstáculos estruturais que dificultam o acesso ao parto normal. Entre eles estão orientações insuficientes durante o pré-natal, desconhecimento do Plano de Parto, acesso limitado à analgesia e dificuldades para realizar laqueadura após o parto vaginal.
Na rede privada, profissionais entrevistados também citaram fatores institucionais, como a previsibilidade do agendamento das cesarianas e a organização da rotina médica, que acabam favorecendo o procedimento cirúrgico mesmo sem necessidade clínica.
Como ampliar o acesso ao parto normal
De acordo com o UNICEF, fortalecer o pré-natal, ampliar o acesso à analgesia, incentivar o uso do Plano de Parto e ampliar a atuação de doulas, enfermeiras obstetras e Centros de Parto Normal podem contribuir para que mais mulheres consigam exercer sua escolha de forma informada e segura. Junto com o estudo, o UNICEF lançou a campanha “Parto normal”. Uma escolha que merece respeito”, voltada a gestantes, familiares, profissionais de saúde e redes de apoio.
Recomendações do UNICEF
Com base nos resultados da pesquisa, o UNICEF recomenda:
- Qualificar o pré-natal com informações claras sobre trabalho de parto, manejo da dor, direitos da gestante e planejamento reprodutivo;
- Ampliar a participação de parceiros e acompanhantes durante o pré-natal e o parto;
- Fortalecer o uso do Plano de Parto e ampliar a atuação de doulas e enfermeiras obstetras;
- Expandir o acesso à analgesia, aos métodos não farmacológicos para alívio da dor e aos Centros de Parto Normal;
- Revisar modelos de assistência e financiamento que possam incentivar cesarianas sem indicação clínica;
- Investir na formação de profissionais e em políticas públicas que garantam um parto seguro, respeitoso e baseado em evidências.
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