O mar tem seus próprios arquivos. Nem sempre escritos em papel, mas gravados em sal, pedra e osso. Em Florianópolis, a força das ondas redesenha a faixa de areia e revela muito mais do que conchas e algas: devolve fragmentos de uma história que permaneceu enterrada por anos. É exatamente isso que está acontecendo na Ilha do Campeche. Com o mar removendo parte da areia, dezenas de ossadas e crânios de baleias voltaram a aparecer, como se o oceano decidisse abrir um capítulo esquecido da formação econômica e cultural de Santa Catarina.
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Os vestígios pertencem ao período em que a caça às baleias transformou o litoral catarinense em um dos principais centros baleeiros da colônia portuguesa. A primeira armação de pesca da baleia em Santa Catarina foi criada em 1740 em Governador Celso Ramos. Em seguida a atividade foi implantada na Armação do Pântano do Sul, em Florianópolis (1772), Balneário Piçarras (1778), Garopaba (1793), Imbituba (1796) e São Francisco do Sul (1807). Durante o inverno, a chegada dos gigantes do Atlântico era aguardada como sinônimo de riqueza. Arpoadas no mar, as baleias eram levadas para as armações, onde a gordura era transformada em óleo utilizado na iluminação pública, na construção civil, na indústria e em diversas atividades econômicas.

A Ilha do Campeche desempenhava um papel estratégico nesse sistema. Além de servir como ponto de apoio para os baleeiros, abrigava estruturas destinadas ao processamento dos animais abatidos e armazenamento do óleo, cujos resquícios ainda resistem ao tempo. Os ossos espalhados pela praia, revelados periodicamente pelas marés, mostram um contraste entre passado e presente. As mesmas baleias que um dia sustentaram parte da economia colonial hoje simbolizam a recuperação da biodiversidade marinha e movimentam o turismo de observação no litoral catarinense.
As caveiras que emergem da areia não representam apenas restos de um passado distante. Funcionam como testemunhas silenciosas da transformação da relação entre seres humanos e natureza. Se antes eram vistas como recurso, hoje são reconhecidas como patrimônio vivo dos oceanos. Quando o mar recua e expõe essas ossadas, não revela apenas antigos esqueletos. Revela uma cidade construída sobre camadas de memória.
O fim da atividade baleeira em Florianópolis ocorreu gradualmente impulsionado pela redução das populações de baleias. O último exemplar capturado foi em 1973 e o silêncio que tomou conta das antigas armações, porém, também parece ter alcançado a memória. Hoje, a cidade não conta com um museu dedicado à história da caça às baleias, e esse capítulo permanece pouco conhecido por moradores e visitantes. Resgatar essa narrativa não significa celebrar a matança que levou esses mamíferos à beira do desaparecimento, mas compreender como moldou a ocupação do litoral, movimentou a economia colonial e influenciou a construção da sociedade catarinense. Conhecer esse passado, com suas contradições e consequências, é também um exercício de preservação.
SC registra mais de 600 pinguins encalhados em apenas dois meses
Município de São Francisco do Sul foi o que registou o maior número, com um total de 411 espécimes, com apenas 32 vivos
O Litoral Norte de Santa Catarina registrou mais de 600 pinguins-de-magalhães encalhados entre maio e julho deste ano, segundo o Projeto de Monitoramento de Praias da Baía de Santos (PMP-BS). O município de São Francisco do Sul foi o que registrou o maior número de encalhes, com um total de 379 espécimes mortos e apenas 32 vivos.














