16 de setembro de 2026
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Flávio Jr

Nepal, STF e o incômodo silêncio brasileiro

Imagem criada por IA.

Eu não poderia me calar diante do que está ocorrendo no Brasil. Na última terça-feira (15), milhões de brasileiros acompanharam uma sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) que, mais do que discutir o destino de uma investigação, expôs diante das câmeras um ambiente de tensão, acusações, divergências entre ministros e interesses pessoais. Pela primeira vez, o STF analisou formalmente se um de seus próprios integrantes, Alexandre de Moraes, poderia ser investigado criminalmente.

O que deveria ser uma demonstração de que a mais alta corte do país tem serenidade institucional acabou se transformado em um retrato desconfortável das fraturas dentro do próprio STF. Trocas de acusações, questionamentos sobre procedimentos, discussões sobre relatorias e até pedidos para que os processos fossem analisados conjuntamente deram ao país uma cena que ultrapassou os limites dos autos. Como o Supremo, aparentemente, perdeu a capacidade de transmitir confiança, o vazio imediatamente ocupou as ruas, físicas ou virtuais.

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Nas redes sociais, a palavra “Nepal” ganhou força entre os assuntos mais comentados no Brasil. O motivo não é difícil de compreender: parte dos internautas passou a associar os acontecimentos daquele país a uma suposta reação contra aquilo que enxergam como impunidade no Brasil. Em setembro de 2025, manifestações lideradas em grande parte por jovens nepaleses começaram após o governo restringir o acesso a diversas redes sociais e foram alimentadas também por insatisfação com corrupção e falta de oportunidades. A escalada de violência deixou mortos e feridos, prédios foram incendiados e o primeiro-ministro K.P. Sharma Oli acabou renunciando.

Imagem: STF.

A história do Nepal deveria ser percebida como um alerta. Quando cidadãos passam a enxergar as instituições como distantes, impermeáveis ou incapazes de responder pelas próprias contradições, a confiança começa a ruir. E uma democracia não sobrevive apenas de leis escritas; precisa também de legitimidade, transparência, responsabilidade e, sobretudo, da sensação de que as mesmas regras valem para todos. O STF ainda não concluiu a análise sobre a abertura da investigação contra Moraes: o ministro Flávio Dino, buscando proteger o colega, pediu vista, interrompendo o julgamento, que deverá ter novos desdobramentos. Não se trata, portanto, de antecipar culpa ou inocência, mas de defender algo anterior a qualquer resultado: o direito da sociedade de questionar, acompanhar e cobrar explicações das instituições públicas.

O Brasil não precisa importar revoltas. Precisa fortalecer a democracia. Precisa de instituições que não tenham medo da transparência, de autoridades que aceitem o escrutínio público e de cidadãos que possam discordar sem transformar a divergência em violência. Talvez a verdadeira mensagem que chega do outro lado do mundo não seja “faça como o Nepal”, mas algo muito mais profundo: quando a confiança desaparece, até o silêncio das instituições pode se tornar ensurdecedor.

Imagem: STF.

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