25 de setembro de 2026
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Saúde

Avanço da imigração impõe desafios no rastreamento de HIV e sífilis em gestantes em Florianópolis

Foto: Fiocruz/Divulgação
Secretaria Municipal de Súde destaca que acesso rápido a consultas e exames é essencial para evitar a transmissão das infecções ao bebê

Santa Catarina é apontada como o novo polo de imigração do Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022, 15,7% da população total de Florianópolis era natural de outros estados, enquanto 2% veio de outros países. A estimativa é de que, nos cinco anos anteriores, a capital tenha recebido 84,6 mil imigrantes. Essa aceleração no fluxo migratório levanta preocupações sobre a pressão sobre os serviços públicos, em especial a saúde.

Entre os novos desafios apontadas pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Florianópolis neste cenário está o acompanhamento pré-natal das gestantes. O protocolo é fundamental para monitorar a saúde da mulher e o desenvolvimento do bebê. Os exames possibilitam a identificação precoce de alterações e condições que podem representar riscos, entre eles a transmissão vertical de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) ao feto, como HIV e sífilis.

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Após dois anos sem nenhum caso, Florianópolis identificou em 2025 uma criança que nasceu com HIV, adquirido ainda durante a gestação. O coordenador do Departamento de Gestão da Clínica da SMS, Ronaldo Zonta, destaca que o acompanhamento pré-natal é fundamental para garantir que o filho chegue saudável, mesmo em casos de transmissão vertical. “A criança que nasce de uma mãe que tem sífilis, HIV, tem tudo para não ter sífilis ou HIV, desde que a gente faça o tratamento no momento correto. Depois, monitora a criança, que mesmo não infectada, preciso também estar de olho”, explica o médico da família.

O caso, segundo Ronaldo, não tratou-se de uma mãe imigrante. Ainda assim, a situação de Florianópolis como polo turístico e de imigração exige alguns cuidados. O coordenador de Gestão Clínica explica que o município não possui um indicador que aponte imigrantes ou turistas como fator de risco para transmissão vertical. No entanto, a falta de acompanhamento pré-natal, ou até mesmo a ausência de exames e do prontuário da mãe que chegou há pouco tempo ou está de passagem, podem resultar no surgimento de casos de HIV e sífilis em recém-nascidos.

“Uma gestante que venha de outro país, ou de outro município, que esteja migrando pra cá ou que esteja em férias, a gente precisa que ela consiga rapidamente se vincular, ter um endereço, pra que tenha um prontuário e consiga garantir a sua consulta o mais rápido possível”, explica Ronaldo. A oferta de testes rápidos para ISTs, segundo o médico, também auxilia na agilidade do acompanhamento da mulher.

O HIV é uma epidemia, não é só da mulher gestante. Quando eu tenho uma cadeia de vírus circulando, eu tenho mais chances de ter qualquer tipo de pessoa com o vírus. Da mesma forma com a sífilis.

As diretrizes do Ministério da Saúde determinam que a investigação de HIV e sífilis deve ocorrer em diferentes momentos do pré-natal, uma vez que essas doenças podem estar presentes mesmo sem sintomas. Os testes devem ser realizados, ao menos, no primeiro e no terceiro trimestres da gestação. Além disso, as infecções devem ser investigados no momento do parto, independentemente de exames anteriores. Em Florianópolis, a rede pública de saúde realiza testes nos três trimestres da gestação, além de realizar um esforço para testar também os parceiros das gestantes.

Segundo o médico da família, Florianópolis se destaca na eliminação da transmissão vertical ao conseguir aplicar os protocolos do Ministério da Saúde rigorosamente, além de ter profissionais preparados para atuar junto às comunidades. “Isso significa a gente ter hoje uma secretaria que está investindo em ter um número suficiente de profissionais do tamanho da nossa população na atenção primária, que são os postos de saúde, então com isso eu consigo garantir mais facilidade de acesso”, explica Ronaldo.

Entre outras iniciativas adotadas pela Saúde da Capital está a testagem para HIV de forma rotineira, independente do risco, durante a amamentação do bebê, seja da mãe ou outra pessoa responsável pelo aleitamento. Além disso, em caso de testes positivos, o município dispõe dos chamados “enfermeiros-navegadores”, que realizam a busca ativa das pacientes em caso de necessidade para que o acompanhamento e o tratamento da doença ocorra de forma correta.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Preconceito endurece barreiras para rastreamento de ISTs

Para o coordenador do Departamento de Gestão da Clínica da Secretaria de Saúde, uma das preocupações em relação ao aumento do fluxo de imigrantes para SC é em relação aos refugiados climáticos diante do aumento na frequência de eventos extremos. É o caso das famílias que perderam tudo nas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 e buscaram uma oportunidade de recomeço no estado vizinho.

“Pessoas que vêm de eventos climáticos extremos, principalmente, ou que vêm refugiadas talvez de um outro país em guerra, são pessoas que perderam o documento, que muitas vezes tiveram a casa inundada e não têm nenhum histórico de exames. O que é importante, independente de quem é essa mulher ou de onde ela venha, é que ela consiga chegar aqui e realizar o cadastro no sistema de saúde rapidamente”, explica Ronaldo Zonta.

O médico destaca ainda que, além da situação de vulnerabilidade, o preconceito também pode ser uma barreira para a prevenção do HIV e sífilis em recém-nascidos. “Se a gente olha para o imigrante como uma pessoa que é diferente da gente e acaba excluindo essa pessoa, realmente ele vai ter dificuldade de procurar um serviço de saúde”, acrescenta Ronaldo. Uma solução possível para reduzir esse afastamento é a adoção de práticas que aproximem o imigrante da comunidade local e dos serviços de saúde, como o fornecimento de manuais informativos em línguas diversas e a oferta de tradução simultânea durante consultas, inciativas já aplicadas em Florianópolis.

Além do preconceito com imigrantes, o médico destaca uma barreira ainda maior para o rastreamento e tratamento de ISTs: o estigma sobre pessoas por conta da própria doença. “Eu tenho o estímulo ao preconceito e à desinformação sobre a infecção. Então, é uma pessoa que tem HIV e tem dificuldade de aceitar o diagnóstico, tem dificuldade de conseguir conversar com amigos, parceiros, familiares sobre o problema, ter uma rede de apoio. Se ela já sofreu preconceito sobre isso, ela tende a se afastar, ou seja, ela tende a não conseguir tratar”, destaca Ronaldo.

Testes rápidos de HIV, sífilis, hepatites B e C são indicados para adultos e adolescentes que possuem vida sexualmente ativa, devendo ser realizados pelo menos uma ou duas vezes por ano. Em casos de práticas de risco, como relações sexuais sem preservativo, esses exames devem ser feitos com mais frequência. Em Florianópolis, eles estão disponíveis nos Centros de Saúde e podem ser agendados por meio do Alô Saúde Floripa (0800 333 3233) ou com a equipe de Saúde da Família na unidade de referência.

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