Na sexta-feira (03) passada, eu havia dito que corríamos o risco de amanhecermos, na segunda-feira, com cara e jeito de Quarta-Feira de Cinzas, após uma eliminação traumática contra a Noruega. E, infelizmente, foi o que de fato aconteceu. Hoje, o país acorda tentando entender o que realmente houve com um time que, sem brilho, deixou a seleção norueguesa ter as rédeas do jogo e avançar de fase.
Análise Completa
Bom, vamos aqui chover um pouco no molhado para relembrar e reforçar o que aconteceu em um ciclo bem conturbado. Esta foi uma seleção que teve dificuldades durante todos os quatro anos: começou sua caminhada há quatro anos com Ramon Menezes; depois veio Diniz, que era meio que um tapa-buracos; logo em seguida, Dorival Júnior, que ficou mais perdido que cego em tiroteio; até o fim da espera por Carlo Ancelotti, que assumiu uma seleção desmontada e destruída por desorganização dentro e fora de campo.
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A missão era juntar os cacos e tentar transformar um time de bons jogadores em algo competitivo para um torneio tão difícil. Durante este período, o técnico italiano comandou a Seleção Brasileira em exatos 17 jogos. Sua trajetória, até o encerramento do ciclo do Mundial, se divide em:
- Eliminatórias: 3 jogos (garantindo a classificação com a vitória sobre o Paraguai).
- Amistosos: 8 jogos.
- Copa do Mundo: 6 jogos (fase de grupos, vitória contra o Japão no mata-mata e queda para a Noruega nas oitavas).
- Retrospecto total: Foram 7 vitórias, 3 empates e 7 derrotas.
Ancelotti chegou para esta Copa do Mundo com muitas experiências feitas, sem grandes certezas e com muitas dúvidas. No jogo contra a difícil seleção de Marrocos, o time apresentou dificuldades principalmente no setor de meio de campo. Com muitos desfalques e a ausência de um meia ofensivo de ofício, o time — que tinha por natureza muita lentidão — não conseguiu ser soberano neste setor tão importante e quase perdeu para os marroquinos.
Em seguida, o jogo tranquilo contra o Haiti deixou evidente que o time tinha evoluído no entrosamento e nas soluções para as ausências. Ainda assim, apresentava alguns erros nítidos de uma seleção que carecia de ritmo. Logo depois, contra a Escócia, o melhor futebol foi apresentado: o time montado com Rayan como titular se mostrou sólido na defesa, criativo no meio de campo e muito eficiente no ataque, com Matheus Cunha e Vini Júnior brilhando até ali. Com um empate e duas vitórias, a seleção avançou à fase de dezesseis-avos de final e tinha uma pedreira pela frente.
Seleção Japonesa
Sabíamos que a seleção japonesa viria na retranca; sabíamos que eles tinham muita força e velocidade. Mesmo assim, deixamos os craques de olhos puxados abrir o placar e colocar nossa classificação às oitavas em risco. E aí veio o segundo tempo contra: Ancelotti corre riscos, mas põe o time para a frente e consegue a virada com bom futebol e, principalmente, atitude e vontade de vencer.
Quem via de fora, e torcia como todos nós, brasileiros, sentia o ápice. Parecia que Ancelotti e seus comandados haviam encontrado um jeito de jogar, e a evolução nas quatro partidas era mais evidente — não só tecnicamente falando, mas mentalmente. Virar um jogo naquelas condições demonstrava que o time tinha chegado a um estágio de competitividade interessante. O time parecia que não oscilaria mais, que teria equilíbrio para superar as adversidades e conseguir enfrentar qualquer adversário na Copa. A virada veio e, com ela, a certeza de que a classificação para as quartas seria apenas um detalhe, já que o time subia degrau por degrau, com resquícios de fortalecimento técnico, tático e mental.
Jogo contra a Noruega
A semana estava tranquila após a grande virada contra o Japão. O país tinha certeza de que tínhamos o melhor momento da Seleção sob o comando de Carlo Ancelotti. Tínhamos apenas algumas dúvidas, como a ausência de Paquetá, que por lesão desfalcaria o time nas oitavas. O treinador italiano optou por colocar Martinelli nesta vaga. Discordo? Talvez sim, o treinador italiano tinha mais opções. Mas quem vai discordar de um time e de um técnico que vêm dando bons resultados? Dito isso, o jogo começou com a expectativa lá em cima: o Brasil parado e o “planeta” esperando a seleção pentacampeã demonstrar seu bom futebol contra os vikings noruegueses.
E o que vimos?
Carlo Ancelotti tem um estilo de jogo que não condiz com o futebol historicamente apresentado pela “Canarinho”. O Brasil de grandes talentos individuais, grandes jogadas e de domínio agressivo do jogo não existe mais, e sob o comando do treinador italiano isso fica evidente. A Seleção abdica da posse de bola para tentar, em um desarme ou contra-ataque, suas chances de gol. Mas a Noruega não deu essas chances, não cometeu erros, e o Brasil passivamente aceitou que o time europeu comandasse as ações do meio de campo, sem oferecer nenhum encurtamento de espaço, pressão na marcação ou jogadas de risco — apenas lampejos de bom futebol e de possibilidades de gols. A Seleção covardemente assistiu a Noruega tocar a bola durante os 90 minutos de jogo e não teve atitude de um time que queria avançar às quartas.
Bruno Guimarães e o pênalti perdido
O grande questionamento que causa indignação é: como um jogador que bateu três pênaltis durante toda a sua carreira é o escolhido para cobrar uma penalidade em uma fase de mata-mata de Copa do Mundo, sabendo que cada detalhe ou erro importa? Sim, Bruno Guimarães foi o escolhido. O “cara” da meia-cancha deste time, que serviu seus companheiros com quatro assistências em quatro jogos, foi para a cobrança de pênalti que definiu muito do que seria a partida a partir dali. Cobrou muito mal, e o goleiro norueguês defendeu facilmente. Não dá para responsabilizar o jogador que até ali tinha ajudado e servido muito à nossa Seleção, mas, de fato, com outros jogadores protagonistas dentro de campo, certamente não seria ele o cobrador de uma penalidade tão importante.
A partir daí, o jogo foi todo da Noruega. O intervalo veio e, com ele, a esperança de que o futebol apresentado fosse outro. Assim como no jogo contra o Japão, tínhamos certeza de que o Brasil viria para cima e faria a vitória necessária. Mudanças foram feitas logo após o início do segundo tempo: Endrick entrou e teve uma chance clara de gol que, em outros tempos, com um certo Fenômeno em campo, não perderíamos. Logo em seguida entraram em campo Danilo Santos (aquele que, para mim, deveria ter começado como titular) e Neymar que, por ter mais liberdade à frente, poderia ser uma das soluções. Mas essas mexidas mataram ainda mais o time, já que, com Neymar entrando mais pelo meio, Endrick foi mais para a ponta e, com isso, voltamos à estaca zero. O Brasil voltou a apresentar o futebol feio, apático e burocrático de quase todo o jogo destas oitavas. Repito: a seleção de Ancelotti foi covarde e deu a bola para a Noruega encontrar suas soluções.
Um monstro chamado Haaland
Durante todo o jogo, muito pouco se ouviu falar dele; o Brasil parecia controlar bem a partida defensivamente. Gabriel Magalhães e Marquinhos não deixavam que a Noruega tivesse possibilidades. Mas o time nórdico foi incansável e, em seus mais de 500 passes certos e 65% de posse de bola, achou brechas. E possibilidades nos pés de Haaland viram gols. O craque com cara de viking não perdoou: de cabeça, fez o primeiro; e com liberdade total, após o desmonte da defesa brasileira que deu tempo, espaço, chutou de fora da área para praticamente colocar a pá de cal nas pretensões da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.
Neymar em campo
Muitos podem até discordar, e isso é saudável em um debate inteligente, mas Neymar, mesmo tendo atuado pouco nesta partida, foi o único que “brigou”, no sentido literal da palavra, por alguma coisa. A partida dele foi “ok”, e onde ele ficou posicionado em campo não permitiu que aparecesse para fazer um “milagre”. Ele fez seu gol de despedida da Copa e da Seleção cobrando um pênalti que mostra que não tinha que ter sido Bruno Guimarães o cobrador da primeira penalidade. Por mais que o critiquem, eu vejo que ele, apesar de não ter sido relevante nesta Copa, teve brio e expressou o que o brasileiro passou na eliminação de ontem. Sua indignação e irritação me confortaram, pois foi o único momento em que a Seleção mostrou que queria brigar por algo.
O Brasil mereceu perder. Mereceu ser eliminado por sua covardia e apatia durante todos os 90 minutos. O futebol pobre e limitado refletiu tudo aquilo que escrevi acima. A Seleção, para se tornar um time entrosado e engajado, vai precisar de muito para chegar em 2030. Ancelotti terá muito trabalho.
Sobre Ancelotti
Ele é o melhor que a Seleção poderia ter, um dos técnicos mais vencedores da história do futebol. Vai cometer erros e acertos. Talvez agora, com tempo, Eliminatórias da Copa, Copas América e outros amistosos, ele tenha prazo para arrumar a casa e conseguir, através de um ciclo de quatro anos, mostrar que esta Seleção pode mais. Não gostei do que vi ontem, mas aposto na continuidade do trabalho.
Segunda com cara de “Quarta-Feira de Cinzas”. A seleção merecia perder! Os Brasileiros não.
Ontem, após a eliminação, pude ver no rosto de muitos a decepção da derrota. Crianças e adolescentes que nunca viram nossa Seleção ser campeã de uma Copa, nunca viram grandes craques serem decisivos e trazerem o caneco; crianças que, com a entrada de Neymar, comemoraram como se fosse um gol, mas, de fato, não sabiam que o Brasil de outrora não temos mais.
O futebol evoluiu, o mundo mudou. E, desta vez, aqueles que ainda não viram nossa Seleção campeã terão que esperar por mais quatro anos. É hora de juntar os cacos e reconstruir o caminho, como em tudo na vida dos brasileiros. Como dito por Marcelo Camelo em uma de suas músicas com o Los Hermanos: “Todo carnaval tem seu fim”.
Se a sua segunda-feira está com cara de Quarta-Feira de Cinzas, levante a cabeça e entenda: em 2030 tentaremos novamente, com as feridas curadas. Mas com cicatrizes que nos deixam mais fortes e com a esperança renovada.
Boa semana!




