Polícia Federal apura uso do litoral catarinense como ponto de partida estratégico de rotas do tráfico
Barcos com aparência de pesca tradicional por fora, mas totalmente modificados por dentro para abrigar toneladas de cocaína, tornaram-se a nova aposta do narcotráfico internacional no Sul do país. A Polícia Federal apura o avanço de organizações criminosas que usam o litoral de Santa Catarina como ponto de partida estratégico para rotas que atravessam o oceano rumo à Europa e à África.
O estado reúne um conjunto de fatores que atrai as quadrilhas: estrutura portuária consolidada, grande polo pesqueiro, mão de obra especializada e estaleiros onde as embarcações podem passar por reformas e adaptações estruturais sem levantar suspeitas.
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Os criminosos vêm comprando e arrendando embarcações principalmente no Porto de Itajaí, o maior polo de pesca do Brasil. A dinâmica logística costuma ocorrer em etapas:
Partida e transbordo: O pesqueiro desatraca do litoral catarinense e segue para áreas pré-determinadas em alto-mar.
Apoio de lanchas rápidas: As drogas são transportadas da costa até o barco pesqueiro por meio de lanchas velozes.
Viagem oceânica: Após a transferência da carga ilícita, o barco inicia a travessia oceânica por milhares de quilômetros, aproveitando a imensidão das águas para dificultar o flagrante.
Blecaute de radares e navegação ‘fantasma’
A imensidão dos oceanos inviabiliza inspeções físicas contínuas, tornando o monitoramento dependente de tecnologia e inteligência. No Brasil, o acompanhamento é feito pelo Programa Nacional de Rastreamento de Embarcações Pesqueiras por Satélite (Preps), mas brechas regulatórias e fraudes limitam sua eficácia.
Além de a obrigatoriedade do sistema variar conforme a modalidade de pesca, os criminosos costumam sabotar os próprios transmissores: “A partir do momento que desligam os equipamentos, vão como se fossem barcos fantasmas”, explica o delegado da Polícia Federal em Santa Catarina, Alessandro Netto Vieira.
Ferramentas como telemetria e mapas de bordo ajudam a auditar trajetos e atividades declaradas, mas fiscais alertam para a necessidade urgente de automatização de alertas contra apagões intencionais de sinal. Há ainda a necessidade de integrar com maior velocidade as informações sobre rotas e embarcações antes que elas fiquem fora do alcance das forças de segurança costeiras.
Cooperação internacional e interceptações
Diante das distâncias continentais, a cooperação diplomática e policial com Marinhas e forças de segurança estrangeiras tem sido o principal caminho para frustrar os esquemas:
Costa africana: Um pesqueiro que zarpou de Santa Catarina foi interceptado pela Marinha Francesa com quase 6 toneladas de cocaína a bordo.
Arquipélago da Madeira: Outros dois pesqueiros brasileiros foram interceptados pelas autoridades nas proximidades da ilha portuguesa, resultando na apreensão de mais de 7 toneladas da droga e na prisão de dez tripulantes brasileiros.
No total, as apurações da Polícia Federal indicam dezenas de toneladas de cocaína apreendidas em rotas marítimas intercontinentais nos últimos meses.
Assista à reportagem do Jornal da Band
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